Corpos que despertam, vozes que precisam de controle e desejos que explodem quando menos se espera. É nessa encruzilhada que o longa esloveno Little Trouble Girls apresenta a jornada de Lucia, uma adolescente que, aos 16 anos, tenta entender o que é seu e o que o mundo exige que ela compartilhe.
Com direção de Urška Djukić, a produção acompanha três dias decisivos em que a protagonista encara o peso da religião, o fascínio de novas amigas e os limites entre prazer e culpa. O resultado é uma obra sensorial, que evita clichês ao combinar ritmo contemplativo com momentos de impacto súbito.
Um retrato delicado do despertar queer
Lucia, interpretada pela vulnerável Jara Sofija Ostan, integra o coral do colégio católico em Liubliana, capital da Eslovênia. De formação conservadora e vigiada de perto pela mãe rígida (Nataša Burger), ela treme diante de qualquer menção a pecado. Mas tudo muda quando, num ensaio, seu regente (Saša Tabaković) a posiciona ao lado da enigmática Ana-Maria, vivida por Mina Švajger.
A colega, mais velha e decididamente ousada, pinta os lábios de Lucia com seu próprio batom e convida: “Posso passar em você se quiser”. É o primeiro de muitos gestos que chacoalham o universo certinho da protagonista, abrindo espaço para novas formas de afeto e desejo.
Trama: três dias que mudam tudo
O coral viaja para Cividale del Friuli, pequena cidade medieval na região italiana próxima à fronteira. O deslocamento de apenas duas horas transforma-se numa travessia para outro planeta na cabeça de Lucia. Longe das regras domésticas, ela encara uma liberdade inédita — ainda que monitorada pelos responsáveis do retiro escolar.
Primeiros contatos
Logo ao chegar, Ana-Maria conduz Lucia por brincadeiras de Verdade ou Desafio, conversas sobre sexo pelo prazer e pequenos delitos, como furtar a camiseta de um operário local (Matia Casson). As duas experimentam beijos às escondidas e banhos nus no rio, sempre entre o êxtase da descoberta e o medo de serem flagradas.
Experiências à margem da fé
Apesar da atmosfera religiosa, a simbologia cristã reforça, paradoxalmente, o clima de tentação. Ao devorar uvas verdes para “apagar o pecado” de um furto, as garotas sentem a culpa se transformar em faísca erótica. Lucia, a única que busca respostas sinceras, vê Ana-Maria brincar com a sexualidade como quem troca de roupa, enquanto nota indícios de desejos reprimidos no próprio professor de canto.
Estilo visual e sonoro
Urška Djukić faz sua estreia em longa-metragem exibindo maturidade formal. A diretora recorre a close-ups extremos — lábios entreabertos, mãos entrelaçadas, flores em macro — que evocam a sensualidade contida de pinturas de Georgia O’Keeffe. Cada quadro sugere mais do que mostra, sem jamais escorregar para a gratuidade.
Imagem: Imagem: Divulgação
Câmera íntima
O diretor de fotografia Lev Predan Kowarski abraça luz suave e texturas naturais: gramados altos, tapetes persas que lembram formas femininas, água correndo sobre pele adolescente. O movimento da câmera é lento, mas o impacto visual chega de forma repentina, como um susto que combina poesia e urgência.
Design de som aguçado
A trilha, por sua vez, valoriza respirações, cochichos de colegas e o eco dos ensaios do coral. Esse desenho sonoro indica a pressão que recai sobre Lucia: ela deve alcançar uma técnica vocal impecável ao mesmo tempo que tenta conter impulsos carnais, impossível para alguém em ebulição hormonal.
Ficha técnica e elenco
Com roteiro assinado por Marina Gumzi, produção de Jožko Rutar e Miha Černec, Little Trouble Girls conta, além do trio central, com participações de Saša Tabaković (regente) e Nataša Burger (mãe). A obra de 90 minutos mescla drama e romance, resultando numa narrativa que se aproxima do tom de Call Me By Your Name e da tensão de Whiplash, mas preserva identidade própria.
Data de lançamento e duração
O filme chega aos cinemas em 29 de agosto de 2025 e deve atrair espectadores interessados em histórias de amadurecimento e representatividade LGBTQIA+. No site 365 Filmes, já há expectativa para conferi-lo no circuito internacional, especialmente entre fãs de narrativas jovens e dramas europeus contemporâneos.
Com 90 minutos de duração, Little Trouble Girls aposta num equilíbrio entre contenção e explosão, conduzindo o público por emoções genuínas sem recorrer a cenas explícitas. Em resumo, trata-se de uma estreia promissora que observa, por uma lente íntima, a eterna batalha entre desejo, fé e autoconhecimento.
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