Uma quadrilha de ladrões de túmulos, um arqueólogo atormentado e o mito de Orfeu e Eurídice costuram a trama de La Chimera, longa que encerra a trilogia da memória de Alice Rohrwacher. Exibido em 2023 no Festival de Cannes, o filme garantiu nove minutos de aplausos entusiasmados e agora pode ser visto no catálogo da Mubi.
Ao misturar crítica social, lenda clássica e cotidiano rural italiano, La Chimera entrega um realismo mágico que hipnotiza pela fotografia terrosa e pela sonoridade de trovadores. Para quem acompanha as estreias comentadas aqui no 365 Filmes, vale ficar de olho nos detalhes que fazem dessa produção um ponto alto do cinema europeu recente.
Enredo mergulha na mitologia e no submundo etrusco
Ambientada no início dos anos 1980, a narrativa acompanha Arthur (Josh O’Connor), arqueólogo britânico recém-saído da prisão. Ele volta à fictícia Ronciglione, na Toscana, carregando a culpa pela morte da namorada Beniamina e o talento de localizar túmulos etruscos cheios de relíquias. O dom é apelidado de “la chimera” pelos comparsas que vivem de saquear peças antigas.
Arthur repete um ritual quase mediúnico para sentir o subsolo, numa busca que ecoa a jornada de Orfeu em direção a Eurídice. Beniamina nunca surge como personagem viva; sua presença é uma recordação persistente que empurra o protagonista a atravessar limites morais e físicos em nome de um reencontro impossível.
Elenco internacional e presença brasileira
Além de O’Connor, destaque em séries britânicas, o longa traz Isabella Rossellini no papel de Flora, mãe de Beniamina e amparo de Arthur nessa volta à cidade. A personagem representa a ponte entre memória afetiva e decadência econômica, já que tenta manter a casa de família enquanto o mercado de arte clandestino drena as riquezas locais.
A brasileira Carol Duarte interpreta Itália, faxineira de Flora que esconde dois filhos temendo despejo. Conhecida por A Vida Invisível e por papéis na televisão, a atriz entrega uma figura terna e pragmática, dividida entre deveres maternos e um afeto inesperado por Arthur. A relação dos dois reforça o contraste entre o passado idealizado e as urgências do presente.
Josh O’Connor domina a tela
Com postura curvada e olhar permanentemente absorto, O’Connor sustenta a dualidade de Arthur: erudito obcecado por artefatos e homem comum paralisado pelo luto. A performance foi apontada pela crítica europeia como um dos trunfos de La Chimera no circuito de festivais.
Carol Duarte leva autenticidade latino-europeia
Duarte acrescenta sotaque brasileiro e fragilidade contida à produção italiana, criando um elo de empatia que equilibra o tom onírico proposto por Rohrwacher. A atriz reforça a amplitude cultural buscada pela diretora na composição da Toscana oitentista.

Imagem: Imagem: Divulgação
Fotografia reforça nostalgia e crítica social
Assinada por Hélène Louvart, a direção de fotografia aposta em luz natural e paleta que valoriza ocres, marrons e verdes musgo. O resultado lembra filmes caseiros em Super-8, evocando a ideia de recordação que guia toda a trilogia da cineasta.
Planos-sequência curtos e movimentos de câmera fluidos aproximam o espectador da atmosfera de feira popular, onde trovadores entoam canções folclóricas enquanto peças arqueológicas mudam de mãos. A combinação sublinha a crítica de Rohrwacher à mercantilização da memória e ao avanço de um capitalismo que esvazia simbolismos antigos.
Recepção em Cannes e trajetória em festivais
Lançado com orçamento estimado em 9,6 milhões de euros, La Chimera optou por circuito limitado, concentrando esforços em mostras internacionais. No Festival de Cannes de 2023, o público prestou homenagem com nove minutos de aplausos de pé, reação que reverberou em resenhas elogiosas nos principais veículos de cinema.
A mistura de aventura, drama e fantasia também rendeu indicações em diversas premiações europeias, principalmente nas categorias de fotografia e atuação. Embora as bilheterias tenham sido modestas, o filme consolidou a reputação de Rohrwacher como voz singular do realismo mágico contemporâneo.
Ficha técnica e dados de produção
Título original: La Chimera
Direção e roteiro: Alice Rohrwacher
Gênero: Aventura, Drama, Fantasia
País: Itália/França/Suíça
Ano de lançamento: 2023
Duração: 130 minutos
Orçamento: 9,6 milhões de euros
Elenco principal: Josh O’Connor (Arthur), Isabella Rossellini (Flora), Carol Duarte (Itália), Yile Yara Vianello (Beniamina)
Direção de fotografia: Hélène Louvart
Exibição: Disponível na plataforma Mubi
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