O catálogo do Prime Video esconde pérolas que passam longe dos holofotes. Uma delas é Lee, produção de 2023 estrelada por Kate Winslet e baseada na biografia que já vendeu 5 milhões de exemplares.
Em pouco mais de duas horas, o longa reconstrói a vida da lendária fotógrafa Lee Miller entre 1930 e 1945, enquanto mostra, em 1977, o impacto tardio de tudo que ela presenciou. Para quem busca um filme com Kate Winslet diferente dos papéis que a atriz costuma interpretar, essa é a escolha certa.
A trama: do glamour pré-guerra ao front europeu
O roteiro, adaptado do livro The Lives of Lee Miller, começa na zona rural inglesa em 1977. A veterana fotógrafa, já longe das redações, recebe um repórter iniciante decidido a registrar sua trajetória. A partir daí, lembranças conduzem o espectador a uma Europa prestes a mergulhar na Segunda Guerra Mundial.
Nos anos 1930, a ex-modelo fotografa artistas em Paris, ambiente recheado de festas e ateliês. Essa rotina muda quando notícias sobre o avanço nazista cruzam seu caminho. Insatisfeita com retratos superficiais, Lee parte para Londres em busca de um cargo na Vogue britânica.
Conflito interno e externo dentro da redação
Contratada pela editora Audrey Withers, vivida por Andrea Riseborough, Lee se recusa a ficar limitada a ensaios de moda. Ela pressiona por espaço para documentar bombardeios alemães e o cotidiano de civis. Essa disputa revela as primeiras tensões entre liberdade jornalística e censura.
Quando Londres passa a sofrer ataques diários, a fotógrafa desce a abrigos subterrâneos, registra escombros e expõe famílias desalojadas. Cada imagem substitui páginas antes dedicadas a vestidos e acessórios, redefinindo o papel da revista em plena guerra.
A virada: credenciamento ao lado das tropas aliadas
A entrada dos Estados Unidos no conflito muda o jogo. Como cidadã norte-americana, Lee consegue credencial para acompanhar as forças aliadas no continente europeu. Ao lado do colega David Scherman, interpretado por Andy Samberg, ela atravessa estradas tomadas por tanques, cidades destruídas e linhas de frente.
O longa alterna ação frenética, discussões éticas e momentos de pausa, sempre destacando o peso de cada clique. Em Saint-Malo, por exemplo, Lee registra o uso de armamento incendiário sem saber que se trata de napalm, descobrindo depois a gravidade da cena que capturou.
Momentos icônicos: Paris livre e a banheira de Hitler
A libertação de Paris rende sequências vibrantes, mas também dolorosas. A fotógrafa reencontra Solange d’Ayen (Marion Cotillard), editora da Vogue francesa que sobreviveu à ocupação. Esses reencontros revelam feridas pessoais em meio à euforia coletiva.
Não tarda para surgir a famosa fotografia de Lee relaxando na banheira do apartamento de Hitler, recriada com precisão. O contraste entre o luxo do local e a destruição ao redor sintetiza o absurdo daquele período.
Campos de concentração e o limite da câmera
Em Buchenwald e Dachau, Ellen Kuras – que faz sua estreia em longas de ficção – coloca a lente na própria reação de Winslet. A direção mostra o rosto de Lee hesitante antes de disparar o obturador diante de corpos empilhados. Parte desse material acaba vetada por censores, frustrando a protagonista e reforçando a dimensão política do seu trabalho.
Imagem: Imagem: Divulgação
1977: um acerto de contas familiar
Nos saltos temporais para 1977, Lee vive reclusa, debilitada e dependente de bebida. O filho Antony Penrose, interpretado por Josh O’Connor, tenta compreender os silêncios maternos. Pilhas de negativos, cartas e ampliadores antigos ocupam cada canto da casa, simbolizando memórias ainda não processadas.
Enquanto Antony folheia contatos fotográficos, o filme conecta lacunas familiares a cenas da guerra, evidenciando que alguns traumas permanecem intocados, mesmo décadas depois.
Elenco de peso e produção caprichada
Além de Kate Winslet, o elenco traz nomes como Alexander Skarsgård, Noémie Merlant e Andrea Riseborough, que ajudam a transmitir a atmosfera da redação e do front. A fotografia usa tons sépia e granulados que remetem a filmes da época, enquanto a trilha sonora discreta realça a tensão sem excesso de dramatização.
Dirigido por Ellen Kuras, conhecida como diretora de fotografia de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, o longa marca sua transição para a condução de projetos autorais, unindo sensibilidade estética e narrativa sólida.
Por que vale a pena assistir no Prime Video
Para quem procura um filme com Kate Winslet que foge do romance tradicional, Lee oferece um retrato cru do jornalismo em tempos de guerra. O título pode ter passado batido no streaming, mas entrega atuações intensas, reflexão histórica e imagens que permanecem na mente.
A produção também interessa a quem curte biografias de figuras femininas fortes ou a quem deseja mergulhar na história da fotografia de guerra. Aqui no 365 Filmes, consideramos o longa um dos tesouros escondidos da plataforma, digno de ser descoberto por qualquer cinéfilo.
Ficha técnica resumida
Título: Lee
Direção: Ellen Kuras
Ano: 2023
Gênero: Biografia, Drama, Guerra, História
Elenco principal: Kate Winslet, Andy Samberg, Marion Cotillard, Andrea Riseborough, Noémie Merlant, Josh O’Connor, Alexander Skarsgård
Avaliação: 9/10
Lee está disponível exclusivamente no Prime Video e, com seu olhar íntimo sobre a trajetória de uma fotógrafa que desafiou limites, merece ser incluído na sua lista o quanto antes.
