James Cameron, ainda colhendo os frutos de Avatar: Fire and Ash, deixou momentaneamente Pandora de lado para comentar outro fenômeno de 2025. Em mesa redonda com colegas cineastas, o canadense contou que chorou em duas exibições diferentes de “Hamnet”, novo longa de Chloé Zhao.
A produção, baseada no romance de Maggie O’Farrell, acompanha William Shakespeare e Anne Hathaway no período seguinte à morte do filho Hamnet. Entre aplausos da crítica e indicações ao Oscar, o drama chamou a atenção de Cameron pela capacidade de tornar a dor algo palpável para o público.
A emoção de Cameron: como o filme conquistou o criador de Avatar
Durante o encontro promovido pelo The Hollywood Reporter, Cameron dirigiu a Zhao uma série de perguntas sobre empatia. Entre risos, admitiu ter “soluçado” em mais de um momento da sessão e quis saber como a diretora mantém o coração aberto em pleno sistema de estúdios.
O relato impressiona porque o cineasta costuma ser lembrado por superproduções cheias de efeitos. Vale lembrar que Avatar: Fire and Ash já soma US$ 1,441 bilhão de bilheteria global — e Cameron planeja levar o realismo ainda mais longe em Avatar 4 e 5. Ou seja, para alguém habituado a blockbusters, a intensidade íntima de “Hamnet” marcou de forma especial.
Atuações que sustentam a tragédia familiar
O trio central do elenco recebeu elogios quase unânimes. Paul Mescal incorpora um Shakespeare contido, dividido entre a fama crescente e a culpa. A cada olhar perdido, o ator indica como o dramaturgo busca na escrita um refúgio para o luto.
Jessie Buckley, por sua vez, evita qualquer histeria fácil ao viver Anne Hathaway. A atriz dosa silêncio e fragilidade, transformando pequenas ações domésticas em declarações de amor e protesto. Segundo veículos especializados, a química entre Buckley e Mescal sustenta o coração do roteiro.
O jovem Jacobi Jupe, intérprete de Hamnet, aparece em cenas pontuais, mas suficientes para que o espectador sinta falta do garoto ao longo da narrativa. O vazio que ele deixa — e que move os pais — jamais seria tão potente sem a presença viva do ator nos minutos iniciais.
Direção de Chloé Zhao intensifica o luto
Conhecida pelo olhar contemplativo de Nomadland, Chloé Zhao investe novamente em paisagens abertas, mas desta vez contrapõe a beleza natural ao abismo emocional da família Shakespeare. Planos longos mostram campos verdejantes enquanto diálogos breves carregam o peso da separação.
Zhao também faz uso inteligente da luz. Fogueiras noturnas, velas ao pé da cama e janelas banhadas pelo sol revelam estados de espírito sem recorrer a subtextos explicativos. Cameron associou essa sensibilidade a uma “conexão com a natureza” que ele próprio persegue desde Titanic.
Imagem: Imagem: Divulgação
Além disso, a diretora evita trilha sonora excessiva. Quando a música surge, geralmente são cordas suaves que partem de instrumentos em cena, intensificando a sensação de época. O resultado leva críticos a compararem “Hamnet” a obras que revisitam o passado com frescor, como a recente adaptação de romance juvenil 30 Sunsets to Fall in Love.
Roteiro adapta Maggie O’Farrell com delicadeza e sem simplificar Shakespeare
Assinado pela própria Zhao em parceria com a escritora Maggie O’Farrell, o roteiro respeita a estrutura literária original, mas enxuga passagens que funcionam melhor na página do que na tela. A dupla extrai diálogos fluidos, mantendo o vernáculo do fim do século XVI sem afastar o espectador contemporâneo.
A peça “Hamlet” surge como eco constante, sem jamais se tornar recurso didático. Há menções sutis ao príncipe da Dinamarca, reforçando a tese de que Shakespeare transformou a dor em arte. Essa costura agrada estudiosos do Bardo e, ao mesmo tempo, oferece porta de entrada para quem ainda não conhece a obra teatral.
O subtexto sobre técnicas de catarsis lembra discussões recentes sobre como filmes de gênero podem tratar traumas. Em jogos e adaptações, por exemplo, o terror de The Mortuary Assistant foi elogiado justamente pela abordagem emocional dos personagens.
“Hamnet” vale a pena ser visto?
Com 126 minutos e classificação PG-13, “Hamnet” não é simples passatempo. A narrativa exige atenção aos silêncios e, por vezes, confronta o público com a própria experiência de perda. Ainda assim, a recepção calorosa indica que o esforço compensa.
O filme acumula indicações em categorias como Melhor Filme, Direção, Ator, Atriz e Roteiro Adaptado. Produtores de peso, entre eles Steven Spielberg — que recentemente reacendeu debates sobre clássicos ao declarar O Poderoso Chefão o maior filme americano — reforçam a robustez do projeto.
Para quem acompanha diariamente as novidades do 365 Filmes, “Hamnet” surge como obra essencial de 2025, tanto pela construção de personagens quanto pela forma como traduz Shakespeare para a tela grande. A emoção confessada por James Cameron apenas ecoa a percepção geral de que Zhao entregou um drama intimista capaz de conversar com plateias de qualquer época.
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