Harpía, disponível na HBO Max, se apresenta como um terror sobrenatural sobre uma bruxa antiga rondando uma mãe e seu bebê. Só que a direção de Angela Gulner brinca com essa promessa para levar o público a outro lugar: um drama psicológico duro sobre maternidade, luto e uma mente que tenta sobreviver ao insuportável.
Durante 86 minutos, acompanhamos Harper (Katie Parker) acreditando que precisa proteger a filha recém-nascida de uma entidade que parece ter fome e intenção. O detalhe é que o filme prepara um golpe final que muda o significado de quase tudo o que vimos, do jeito que os personagens se comportam até os “sinais” do suposto sobrenatural.
Alerta de spoilers: a análise abaixo revela a grande virada de Harpía e explica o desfecho. Se você ainda não assistiu e prefere descobrir a verdade junto do filme, guarde este texto para depois.
A grande reviravolta do final: o bebê estava vivo?
Não. A dura realidade revelada no final é que o bebê de Harper já estava morto o tempo todo. Essa informação recontextualiza a história inteira, porque desmonta a leitura literal de mãe contra bruxa e transforma o terror em uma representação da negação.
O que a câmera mostrou como presença do bebê, ao longo do filme, não é um “ponto de vista confiável”. É a mente de Harper preenchendo o vazio para não encarar a tragédia. Quando isso encaixa, tudo ganha outra cor: a urgência de proteger, os momentos de silêncio e até o jeito como as pessoas ao redor parecem reagir com estranheza, como se estivessem sempre pisando em ovos.
Essa é a sacada mais devastadora do longa: ele usa a linguagem do horror para traduzir um luto que não encontra saída.
Psicose pós-parto ou colapso pelo luto?
O final sugere que Harper sofre uma psicose pós-parto grave ou um colapso mental induzido pelo luto. A “presença” do bebê funciona como manifestação do surto, uma construção que protege Harper do choque total.
Isso também explica por que as interações de outros personagens com o bebê parecem distantes ou esquisitas. Em uma leitura mais direta, eles não estão vendo o que Harper vê. Eles estão lidando com uma mulher segurando o vazio, ou uma boneca, tentando manter a realidade minimamente organizada enquanto ela desaba por dentro.
Esse tipo de reinterpretação faz o filme ficar ainda mais triste quando você pensa na solidão da personagem. Harper não “vira alvo” de uma entidade por azar. Ela cria uma narrativa de ameaça para dar sentido ao caos.
Como o bebê de Harper morreu?
Harpía não mostra a morte de forma explícita no início. O filme prefere plantar pistas e manter o mistério até o fim, porque o segredo é a chave de tudo. A suposição mais forte é que o bebê tenha se sufocado enquanto dormia com um bicho de pelúcia em formato de corvo que estava no berço.
Quando você liga esse ponto, a estética da “Harpía” (ou Beldham) faz sentido. A criatura tem traços de pássaro, de bruxa-pássaro, como se o cérebro de Harper tivesse transformado o objeto do trauma em símbolo do agressor. É um mecanismo cruel: o que era para confortar vira gatilho, e o gatilho vira monstro.
Sadie e Bette: quem são elas de verdade?
Uma das tensões do filme é a relação de Harper com Sadia, sua mãe. Em um terror tradicional, essa figura poderia ser tratada como antagonista: controladora, fria, desconfiada. Só que o final vira o jogo e deixa claro que Sadie não é vilã. Ela é uma mãe tentando desesperadamente salvar a filha de si mesma.
Bette, por sua vez, não é apenas uma ajudante doméstica. Ela funciona como cuidadora contratada para monitorar Harper. Isso muda a leitura de várias cenas: a presença constante, o cuidado calculado, a vigilância sutil. Não é invasão; é protocolo. E é também um sinal de que a família já sabe que Harper está em risco.

O que Harpía significa e por que o final pesa tanto
O significado central de Harpía está na ideia de que o terror pode ser uma forma de negar a realidade. Harper precisa de uma entidade porque um inimigo externo é uma história suportável. Já a morte do bebê, não. É o tipo de dor que implode qualquer explicação simples.
Quando o filme revela o vazio, ele obriga o público a reler tudo como tragédia: não havia missão de proteção, havia uma tentativa desesperada de continuar vivendo um dia a mais sem encarar a perda. E, nesse sentido, a Harpía não é uma bruxa: é a sombra do trauma com forma. E no 365 Filmes, a gente gosta desse tipo de final porque ele não depende de choque barato: ele depende de sentido!
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