Drácula nunca sai de moda, mas raramente aparece em cena com tamanho desplante quanto em Drácula: Uma História de Amor. O longa, programado para 6 de fevereiro de 2026, coloca Luc Besson à frente de uma adaptação que prefere a gargalhada à elegância aristocrática.
Com 129 minutos de duração, o filme sacode o romance gótico de Bram Stoker com números musicais improvisados, gargólios de estimação e um perfume hipnótico capaz de reger coreografias coletivas. O resultado? Um espetáculo desajeitado, porém irresistível, sustentado pela entrega total do elenco.
Um Drácula que abraça o camp sem pedir desculpas
Desde a sequência de abertura, Drácula: Uma História de Amor deixa claro que a lógica clássica foi trancada fora do castelo. A criatura de Caleb Landry Jones surge mais apaixonada do que ameaçadora, usando a imortalidade para reconquistar a reencarnação de Elisabeta e para brincar de mestre de cerimônias no salão principal.
O texto, assinado pelo próprio Besson em parceria póstuma com a obra de Bram Stoker, trafega entre o melodrama arrebatado e piadas que parecem saídas de um esquete televisivo. Há quem torça o nariz, mas a produção encontra respaldo em décadas de cinema vampiresco que apostou no exagero, como mostram os 10 filmes de vampiro que definiram um século de cinema.
Caleb Landry Jones e Christoph Waltz dominam o tabuleiro
Caleb Landry Jones assume o Conde com um sotaque que passeia entre o leste europeu e o sul dos Estados Unidos, acentuando o caráter imprevisível da criatura. Seu Drácula oscila entre crises de ciúmes e noites de improviso teatral ao lado de Elisabeta, mantendo o olhar vidrado de quem não sabe se vai beijar ou morder o próximo pescoço.
O contraponto dramático — e cômico — é Christoph Waltz, creditado apenas como Padre. Ele funciona como a variação de Van Helsing, mas troca crucifixos reluzentes por goles de vinho sacro tomados com absoluto desdém. Em uma cena que sintetiza o tom do longa, o sacerdote queima um crucifixo, dá de ombros e anota “experimento inconclusivo” num bloco de notas.
A dupla domina o filme graças à química que equilibra farsa e emoção genuína. Waltz, em especial, injeta no clímax uma melancolia que quase faz esquecer os petardos humorísticos anteriores. É uma sacada de atuação que dialoga com a construção de personagens excêntricos que já deram prestígio ao ator em projetos de escala variada.
A direção de Luc Besson entre o romance sombrio e a galhofa
Luc Besson ficou célebre pela estética pop de O Quinto Elemento, e volta a exibir traços similares aqui: filtros de cores saturadas, figurinos anacrônicos e travellings que flertam com o videoclip. O diretor até tenta abraçar o romantismo trágico — basta ver os closes nas cartas trocadas entre Drácula e Elisabeta —, mas o impulso de virar tudo de ponta-cabeça fala mais alto.
Parte da graça está em ver o longa avançar sem medo de tropeçar. Sequências de violência gráfica surgem ladeadas por piadas visuais, e o roteiro não recua na hora de ridicularizar Jonathan Harker, descrito como o humano menos atento que já pisou na Transilvânia. O humor físico empresta ao filme uma energia parecida com a de produções que fizeram história no cinema de gênero, lembrando como o exagero pode ser ferramenta dramática legitima.
Imagem: Everett Collecti
Num momento curioso, o filme interrompe uma investida sanguinolenta para mostrar o Conde ensinando gargólios a organizar o salão. É o tipo de cena que sintetiza o híbrido entre pastelão e horror romântico que Besson queria alcançar, mesmo que nem sempre esse equilíbrio se mantenha coeso.
Comparação inevitável com Nosferatu (2024)
A nova leitura de Drácula chega dois anos após Nosferatu (2024), produção que optou por ressuscitar o expressionismo alemão para construir um terror seco e agônico. Enquanto a obra de 2024 mergulha na escuridão, Drácula: Uma História de Amor decide escancarar luzes neon e abraçar o absurdo.
Nosferatu é tecnicamente superior em fotografia, ritmo e coesão, mas também exige do espectador disposição para encarar duas horas de densidade psicológica. Já o filme de Besson troca rigor por entretenimento rápido, guiado por performances autoconscientes e set pieces que parecem saídas de uma ópera rock.
Essa leveza pode aproximar quem prefere ir ao cinema sem precisar de manuais de teoria do horror. Em 365 Filmes, este contraste de propostas costuma render debates acalorados sobre o lugar do pastiche no grande ecrã. Ainda assim, ambos os filmes reforçam que o mito de Drácula permanece fértil o bastante para sustentar leituras opostas em tão curto intervalo.
Drácula: Uma História de Amor vale o ingresso?
A resposta depende do apetite do público por comédias involuntárias convertidas em estilo. Quem procura fidelidade literária encontrará hiatos, mas quem topar uma sessão de risadas embaladas por romance vampiresco encontrará em Drácula: Uma História de Amor um banquete de bizarrices.
As atuações de Caleb Landry Jones e Christoph Waltz conduzem o espectador por um roteiro que parece improvisar a cada curva, testando limites entre o sublime e o ridículo. E, mesmo quando o filme derrapa, faz isso com um sorriso canino de quem sabe que algumas histórias sobrevivem melhor na gargalhada do que no susto.
Se a versão de Besson não alcança o status de obra-prima, ao menos garante um dos Dráculas mais excêntricos do século, capaz de unir fãs de terror B e entusiastas do romance camp numa mesma sessão — sem esquecer a plateia que só quer ver um vampiro dançar.
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