Uma conversa por vídeo se transforma em testemunho histórico. Entre telas de celulares, duas mulheres compartilham medos, sonhos e um desejo comum: sobreviver.
Assim nasce “Put Your Soul on Your Hand and Walk”, longa da diretora iraniana Sepideh Farsi que chega aos cinemas em 22 de agosto de 2025 trazendo a voz da palestina Fatma Hassona, morta um dia após a seleção do filme para o Festival de Cannes.
Da seleção em Cannes à perda irreparável
A equipe de “Put Your Soul on Your Hand and Walk” recebeu a notícia da exibição na mostra oficial do Festival de Cannes de 2025 apenas 24 h antes da tragédia. Em 9 de abril, um bombardeio israelense matou Fatma Hassona, de 24 anos, junto com seis familiares em Gaza. A jovem fotojornalista já havia perdido 13 parentes quando iniciou as chamadas de vídeo com Sepideh, no início de 2024.
O longa apresenta essas conversas sem filtros nem câmeras profissionais. Sepideh grava a tela do celular com outro aparelho, recurso que iguala diretora e personagem e reforça o improviso forçado pela guerra. O formato horizontal, por vezes instável, lembra a maneira como o mundo acompanha o conflito: em smartphones, entre quedas de sinal e pixels estourados.
Estrutura íntima e narrativa de resistência
“Put Your Soul on Your Hand and Walk” constrói um diário audiovisual de 113 minutos. Enquanto mísseis explodem ao fundo, Fatma exibe composições fotográficas que contestam versões oficiais do Exército israelense. Cada quadro reforça orgulho e resiliência: “Sinto-me orgulhosa de ser palestina, eles não podem nos derrotar”, diz ela na primavera de 2024.
A alternância entre conversas caseiras e trechos de telejornais — também captados pelo celular de Sepideh — amplia a tensão. Notícias sobre negociações de cessar-fogo, trocas de reféns e declarações do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu surgem entre relatos cotidianos de falta de comida, hospitais destruídos e sonhos de caminhar pelo tapete vermelho na Riviera Francesa.
Uma amizade além das fronteiras
A diretora iraniana começou a carreira registrando protestos em Teerã nos anos 1990. Essa experiência de enfrentamento cria empatia imediata com Fatma, forjada na urgência de registrar a própria história. No filme, as duas trocam impressões sobre arte, política e sobrevivência, revelando espelhos de gerações separadas por fronteiras, mas unidas pelo desejo de narrar a realidade.
Título inspirado em metáfora de vida ou morte
O nome “Put Your Soul on Your Hand and Walk” surge de um diálogo tardio. Sem encontrar a expressão exata em inglês, Fatma descreve a sensação de sair às ruas sob ataque: “Você coloca a alma na mão e anda”. A frase, carregada de vulnerabilidade poética, sintetiza a existência de quem vive rotulado como inimigo e precisa seguir adiante.
A própria Fatma escrevia versos. No longa, trechos aparecem sobre imagens da cidade devastada, reforçando a força criativa da jovem, mesmo diante de cenários de escombros.
Imagem: Imagem: Divulgação
Detalhes de produção e recepção inicial
Dirigido por Sepideh Farsi e produzido por Djavad Djavahery, o documentário tem estreia comercial marcada para 22 de agosto de 2025. A duração é de 113 minutos e a crítica internacional já atribuiu nota 8/10, destacando a potência emocional do material.
Em “Put Your Soul on Your Hand and Walk”, não há narração externa nem trilha grandiosa. O silêncio de conexões falhadas, as explosões distantes e a risada contagiante de Fatma constroem a trilha sonora que convida o público a testemunhar — e não apenas assistir — à rotina em zona de guerra.
Impacto potencial no Festival de Cannes
A seleção em Cannes posiciona o filme como uma das obras de não ficção mais aguardadas de 2025. Mesmo finalizado antes da morte da protagonista, o longa ganha contornos ainda mais dolorosos após a confirmação do ataque aéreo. A sessão especial em memória de Fatma promete deslocar a discussão do tapete vermelho para a urgência humanitária, elemento raro em grandes eventos de cinema.
Legado de Fatma Hassona
O trabalho fotográfico de Fatma permanece como documento de resistência. Suas imagens, exibidas no filme, questionam a desumanização e lembram que cada vítima de conflito carrega mundos inteiros de sonhos interrompidos. O longa sugere essa reflexão ao mostrar a jovem sorrindo, falando sobre comida preferida, planos de viagem e, ao mesmo tempo, buscando abrigo de explosões.
Para o público brasileiro que acompanha lançamentos pelo 365 Filmes, “Put Your Soul on Your Hand and Walk” oferece perspectiva rara: a de uma voz que, mesmo silenciada pela guerra, ecoa nas telas ao redor do planeta — inclusive em celulares semelhantes aos utilizados na produção.
Informações essenciais
Filme: Put Your Soul on Your Hand and Walk
Gênero: Documentário
Direção: Sepideh Farsi
Produção: Djavad Djavahery
Elenco principal: Sepideh Farsi (ela mesma), Fatma Hassona (ela mesma)
Duração: 113 min
Estreia: 22 de agosto de 2025
Seleção: Festival de Cannes 2025
Com abordagem íntima e crua, “Put Your Soul on Your Hand and Walk” transforma a tela em palco de empatia. Entre quedas de conexão e ruídos de bombardeio, o documentário perpetua a alma de Fatma Hassona e convida o espectador a reconhecer o peso da guerra sobre vidas comuns, uma ligação de vídeo por vez.
