Pode um filme sobre amadurecimento escolar virar um labirinto de realidades paralelas e diálogos sem sentido?
Em Peas and Carrots, a resposta é um sonoro “sim” — ainda que isso não signifique algo positivo.
A produção de 96 minutos dirigida por Evan Oppenheimer aposta em um conceito ousado, mas se perde em interpretações irregulares e numa trama que exige esforço até para conectar os pontos.
Lançada nos Estados Unidos e com estreia marcada para 3 de outubro de 2025, a obra acompanha Joey Wethersby, filha de ex-rockeiros que tenta juntar a família por meio da música.
Quando atravessa o brilho lilás de uma luminária com defeito, a adolescente vai parar em um set que parece saído de uma sitcom “Disney-like”, onde todos só pronunciam a expressão nonsense que dá nome ao longa.
A premissa rende momentos curiosos, mas o resultado geral deixa a desejar, como mostra a análise a seguir, preparada pelo 365 Filmes.
Enredo: de drama colegial a universo paralelo
A narrativa inicia em terreno familiar: Joey (Kirrilee Berger) enfrenta o dia a dia do ensino médio enquanto lida com pais desiludidos.
Gordon (Jordan Bridges) trocou os palcos pela sala de aula, e Laurie (Amy Carlson) tenta manter viva uma carreira musical que o tempo teima em apagar.
Para reanimar o espírito criativo da família, Joey sugere formar um grupo à moda Partridge Family — referência direta à banda fictícia da TV dos anos 1970.
À noite, porém, a jovem encontra um portal improvisado: o feixe púrpura que surge da luminária enguiçada.
Ao atravessá-lo, depara-se com um cenário de série infantil cheio de figurantes que murmuram “peas and carrots” em vez de falas reais.
Nesse universo, ela passa rapidamente de extra ignorada a protagonista, embora não tenha ideia do que está gravando nem de quanto tempo ficou ausente do mundo real.
Elenco e caracterização destoam da proposta
Kirrilee Berger busca imprimir naturalidade a Joey, mas a diferença entre sua aparência e a idade da personagem pesa contra a imersão.
O mesmo vale para Talia Oppenheimer, anunciada como uma garota de 13 anos que não convence no papel.
Esse desalinhamento se estende ao restante do elenco, gerando a sensação de adultos disfarçados de adolescentes sem o distanciamento cômico que justificaria a escolha.
O clima de estranhamento aumenta quando se percebe que o set paralelo replica comportamentos venenosos típicos de bastidores televisivos.
Figurantes e produtores tratam Joey com descaso, só para, repentinamente, oferecerem falas e destaque à novata, reforçando a confusão sobre as regras daquele mundo.
Direção e ritmo comprometem a experiência
Evan Oppenheimer flerta com o surrealismo, lembrando um “Kidz Bop encontra David Lynch”, mas a execução emperra em dois pontos: atuação engessada e ritmo irregular.
Cenas familiares que poderiam humanizar a trama dividem espaço com sequências oníricas prolongadas, sem que ambas se complementem.
O roteiro ainda introduz dois arcos paralelos que mal se tocam: a jornada profissional dos pais, ex-integrantes da banda City Kids, e a ascensão de Joey no universo lavanda.
Como o filme não decide se as experiências são sonho ou realidade alternativa, o espectador fica à deriva, esforçando-se para encontrar coerência onde quase não há.
Imagem: Imagem: Divulgação
Temas de fundo se perdem no caminho
Há sementes de discussões interessantes sobre identidade, fama e trabalho em equipe.
O uso da expressão “peas and carrots” — tradicionalmente balbuciada por figurantes para simular conversas — sugere uma metáfora sobre ser coadjuvante ou estrela da própria vida.
Mesmo assim, a mensagem dilui-se em subtramas que recebem atenção desigual e em diálogos incapazes de desenvolver plenamente qualquer das ideias.
A sequência mais promissora envolve Laurie e Gordon, agora adultos divididos entre arte e rotina doméstica.
Infelizmente, o filme dedica poucos minutos a esse dilema, optando por focar no mistério do set paralelo, que raramente entrega respostas satisfatórias.
Aspectos técnicos: estética atraente, mas pouco explorada
A fotografia aposta em tons néon, especialmente roxos e lilases que remetem a buscas identitárias à la I Saw the TV Glow.
Contudo, a paleta vibrante não compensa a falta de clareza narrativa, funcionando mais como adereço chamativo do que parte orgânica da história.
A trilha sonora tenta homenagear o passado roqueiro dos Wethersby, mas não atinge um tema marcante que una as duas realidades.
A montagem, por sua vez, alterna blocos longos de explicação com cortes abruptos, prejudicando a fluidez e aumentando a sensação de quebra de ritmo.
Veredito final: 3 de 10
No fim, Peas and Carrots entrega uma mistura curioso-confusa que empolga apenas em lampejos.
Entre personagens que não convencem, direção hesitante e um roteiro que exige esforço para acompanhar, a obra acaba refletindo o próprio título: palavras que parecem significar algo, mas que, juntas, resultam em ruído.
Lançado como comédia de ficção científica familiar, o filme corre o risco de não satisfazer nenhum dos públicos-alvo.
Embora a premissa ofereça um convite ao inusitado, a execução não sustenta a viagem, tornando esta produção um caso de potencial desperdiçado.
