Se você esperava uma adaptação comportada e de época para o clássico de Emily Brontë, Emerald Fennell tem outros planos. A diretora de Saltburn recrutou Margot Robbie e Jacob Elordi para transformar O Morro dos Ventos Uivantes em uma jornada onde o desejo é tão sufocante quanto a névoa dos pântanos ingleses.
O filme é uma interpretação, uma vibe, um recorte muito específico da mente que nos trouxe a insanidade pop de Saltburn. Inclusive, tenho certeza absoluta de que a internet vai se dividir ao meio: os puristas literários que vão odiar cada liberdade criativa tomada e a nova geração que vai transformar cada frame esteticamente perfeito em um edit viral no TikTok. E, honestamente? Ambos estão certos.
A química radioativa entre Margot Robbie e Jacob Elordi
Ao lado de Robbie, Jacob Elordi parece ter nascido para interpretar Heathcliff, ou pelo menos essa versão hipermasculinizada e sombria dele. Nós do 365 Filmes sentimos que o filme opera em uma frequência de histeria controlada.
A química entre os dois é simplesmente radioativa. Não espere aquele amor romântico de suspiros e cartas; o que vemos em tela é uma doença, uma obsessão que consome a sanidade de ambos. Eles se amam desde crianças, mas a incapacidade de comunicação e a ambição de Cathy criam um abismo que só a vingança consegue preencher.
Quando Cathy decide se casar com o vizinho rico, Edgar (vivido por Shazad Latif), e Heathcliff foge para retornar anos depois, agora rico e vingativo, o filme engata uma segunda marcha de pura tensão erótica. Fennell foca intensamente no “timing” terrível desses amantes e em como o desejo pode ser a força mais destrutiva da natureza humana. É uma interpretação que prioriza o corpo e o olhar sobre as palavras, tornando o clássico de 1847 algo urgente e carnal para o público de 2026.
Liberdades criativas e o polêmico Heathcliff de Fennell
Aqui entramos no terreno pantanoso das mudanças. Na obra original de 1847, a etnia de Heathcliff é um ponto central de sua marginalização. Fennell opta por um jovem britânico pobre (Jacob Elordi), alterando a dinâmica racial do texto. Para quem acompanha o cinema contemporâneo, essa escolha lembra a ousadia de outras releituras, mas foca o conflito puramente na luta de classes. É uma decisão que simplifica a árvore genealógica dos Linton para priorizar o magnetismo dos protagonistas.
Para muitos, isso será um erro de simplificação, mas para a proposta do filme, serve para focar exclusivamente na rejeição social pelo dinheiro e pela classe, não pela raça. É uma escolha corajosa de roteiro, ainda que extremamente discutível para os fãs fiéis.
Outras mudanças também reforçam que estamos assistindo a uma versão “entre aspas”. Os irmãos Linton não são irmãos nesta versão, o que remove camadas de complexidade genealógica, mas simplifica o drama para focar no triângulo amoroso principal.
Além disso, temos uma Nelly Dean interpretada por Hong Chau, que traz uma postura muito mais ativa e crítica do que a governanta observadora do livro. Chau é o olhar do público dentro daquele hospício emocional, reagindo com o mesmo choque que nós sentimos diante das atrocidades cometidas em nome dessa louca paixão.
A desconstrução estética de um clássico literário
O que sustenta a produção, no entanto, é a atmosfera de desolação. Fennell consegue capturar a essência “uivante” dos morros de uma forma que poucas adaptações conseguiram. O isolamento geográfico reflete o isolamento emocional de Cathy e Heathcliff.
É um filme úmido, frio e visualmente deslumbrante, onde a fotografia abusa de planos que diminuem os amantes diante da natureza indomável. A pergunta sobre a metalinguagem do título permanece: seria uma forma de dizer que eles estão presos em uma narrativa que eles mesmos criaram?
Fennell prova que o clássico não é sagrado, é matéria-prima. Ela molda o texto de Brontë para servir à sua visão de mundo, onde o desejo é a força motriz de todas as tragédias. Pode não ser a versão definitiva da história, mas é certamente a mais intensa e visualmente impactante dos últimos tempos. O filme te convida a se perder na obsessão de seus personagens, mesmo sabendo que isso vai acabar muito mal para todos os envolvidos. É um espetáculo de dor e beleza que reafirma a força duradoura dessa narrativa de vingança.

Veredito: Vale a pena assistir?
Essa nova adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes” é um espetáculo visual que certamente vai polarizar, mas jamais deixará o espectador indiferente. Emerald Fennell entrega uma obra que prioriza a atmosfera e o desejo carnal, criando um clássico moderno visualmente impecável.
Nos pontos positivos, a química explosiva e tóxica entre Margot Robbie e Jacob Elordi carrega o filme com uma energia caótica que justifica a obsessão da trama. A direção de arte e a fotografia são deslumbrantes, transformando a lama e o frio em poesia visual. A ousadia de Fennell em modernizar o tom, mantendo a crueldade inerente aos personagens, traz um frescor necessário para uma história contada tantas vezes no cinema.
Por outro lado, as mudanças drásticas no material original são o grande ponto negativo. A alteração da etnia de Heathcliff e da dinâmica familiar dos Linton remove camadas de profundidade social e racial que são pilares fundamentais do livro, o que pode alienar os leitores mais ávidos. Além disso, em alguns momentos, o filme parece priorizar a estética de videoclipe em detrimento de um desenvolvimento narrativo mais profundo, o que pode soar superficial para alguns.
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