Luca Guadagnino consolidou-se na última década como o grande esteta do desejo no cinema contemporâneo, mas seus filmes recentes sugerem uma mudança de foco: da sensualidade tátil e solar de Me Chame Pelo Seu Nome para a obsessão febril e destrutiva. Em Queer, o cineasta italiano mergulha de cabeça no universo alucinógeno de William S. Burroughs para entregar sua obra mais ambiciosa e, possivelmente, a mais hermética.
Longe de ser apenas um romance de época, o filme que chega dia 31 na Netflix, mas já se encontra disponível no MUBI opera como um estudo sobre a solidão corrosiva, onde a busca por conexão humana se confunde com o vício. Guadagnino não está interessado em realismo; ele constrói um México de estúdio, artificial e saturado, que funciona como um espelho da mente deteriorada de seu protagonista.
A estética do sonho febril e a influência de Magritte
Para quem espera uma narrativa linear ou o sentimentalismo acessível de obras anteriores do diretor, o aviso é claro: Queer é uma experiência de desconforto deliberado. O filme, que vem dividindo a crítica e o público com sua abordagem intransigente, desafia as convenções do drama biográfico ao rejeitar a vitimização em favor de uma honestidade brutal sobre a predação e a carência.
O aspecto mais fascinante de Queer reside na decisão estética de Guadagnino de abandonar o naturalismo. A cinematografia, assinada pelo colaborador habitual Sayombhu Mukdeeprom, transforma a Cidade do México dos anos 50 em uma paisagem onírica que parece saída diretamente de um quadro de René Magritte.
Há uma qualidade plástica, quase surrealista, na forma como os cenários são iluminados e enquadrados. O diretor utiliza o artifício dos estúdios da Cinecittà para criar um mundo que existe apenas na percepção drogada de Lee, onde as cores são vibrantes demais e as sombras escondem perigos existenciais.
Essa escolha visual potencializa a narrativa de um desejo que nunca se concretiza plenamente. O filme utiliza sobreposições de imagens de forma magistral para traduzir a confusão mental e a embriaguez constante dos personagens. Essas fusões visuais não são meros truques de estilo; elas representam a dissolução das fronteiras entre o eu e o outro, entre a realidade e a alucinação provocada pela abstinência ou pelo excesso.
Guadagnino conduz o espectador por essa viagem erótica pelos trópicos com a mão firme de quem entende que, no universo de Burroughs, o sexo e a morte caminham de mãos dadas. A beleza aqui não é reconfortante; é uma beleza doente, que seduz e repele na mesma medida.
Daniel Craig e a vulnerabilidade por trás da armadura
Se a estética é o corpo do filme, Daniel Craig é a alma que o habita. Em uma performance que deve ser lembrada como o ponto alto de sua carreira pós-Bond, Craig despe-se de qualquer vaidade heroica para viver Lee. Ele entrega uma atuação sensível e dolorosamente sincera, capturando a essência de um homem desesperado e solitário, cuja inteligência afiada não é suficiente para salvá-lo de seus próprios impulsos. O ator trabalha a fisicalidade de um corpo que envelhece e anseia, transmitindo uma patetice comovente em sua perseguição por um amor não correspondido.
Do outro lado dessa equação tóxica está Drew Starkey no papel de Eugene Allerton. Embora o holofote pertença inegavelmente a Craig, Starkey cumpre bem o seu papel ao encarnar o objeto de desejo inalcançável. Sua atuação é marcada por uma ambiguidade fria, uma indiferença que alimenta a obsessão de Lee. A dinâmica entre os dois não é de um romance convencional, mas de uma negociação constante de poder e submissão. O filme consegue passar bem para o espectador a solidão esmagadora de Lee, que vê em Eugene não uma pessoa, mas uma última chance de sentir algo real antes que o abismo se feche.
O desconforto como ferramenta narrativa
Guadagnino não tem medo de alienar sua audiência. A segunda metade do filme, que adentra o território da viagem da ayahuasca na América do Sul, rompe qualquer laço restante com a narrativa tradicional.
Aqui, o surrealismo assume o controle total, e o desconforto gerado torna-se quase tátil. O diretor estica as cenas, força o olhar do público sobre corpos e fluidos, e recusa a catarse emocional fácil. A solidão que permeia a primeira metade se transforma em um horror existencialista.
Essa abordagem, embora magistralmente executada, pode soar indulgente para alguns. O ritmo arrastado e a repetição de ciclos de busca e rejeição são propositais para colocar o espectador na pele do viciado, mas exigem paciência.
Queer não é um filme que pede para ser amado; ele pede para ser vivenciado. A desconexão emocional de Eugene reflete a desconexão do próprio filme com as expectativas de um “filme de arte” palatável. Guadagnino prefere a estranheza, o grotesco e o sublime, criando uma obra que, assim como os textos de Burroughs, é um vírus que se instala na mente.

Veredito
Queer é uma obra-prima imperfeita e pulsante, onde Luca Guadagnino reafirma sua posição como um dos cineastas mais ousados da atualidade. Ao levar o espectador nessa viagem surrealista, ele prova que o cinema ainda pode ser um lugar de risco e experimentação visual.
Daniel Craig entrega uma performance devastadora, despindo-se de corpo e alma para retratar a agonia do desejo não correspondido.
Apesar de eventuais excessos e de um ritmo que desafia a atenção, o filme é uma adaptação visualmente deslumbrante que captura o espírito caótico e melancólico de William S. Burroughs. Se você está disposto a enfrentar o desconforto e a mergulhar em um pesadelo erótico sem garantias de retorno, Queer é uma experiência cinematográfica indispensável.
Não é apenas um filme sobre um homem gay nos anos 50; é um tratado universal sobre a dor de querer quem não podemos ter e a loucura que reside no fundo de um copo de mezcal.
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