Existe uma linha muito tênue entre o cinema de arte que desafia o espectador e o exercício de estilo que se perde na própria pretensão. Ao assistir Morra, Amor (Die, My Love), novo longa da aclamada diretora Lynne Ramsay, a sensação predominante é de que essa linha não foi apenas cruzada, mas completamente ignorada em favor de uma estética do sofrimento.
A promessa era imensa: reunir a cineasta responsável por obras-primas do desconforto, como Precisamos Falar Sobre o Kevin e Você Nunca Esteve Realmente Aqui, com a potência inegável de Jennifer Lawrence, adaptando o romance da argentina Ariana Harwicz. No entanto, o que vemos na tela é um filme que promete muito mais do que consegue entregar, resultando em uma experiência que confunde profundidade psicológica com repetição exaustiva.
A estética da asfixia e a montagem irregular
A trama nos joga no cotidiano sufocante de uma mulher sem nome, vivendo em uma área rural isolada no interior dos Estados Unidos. Ela trava uma batalha diária e silenciosa com sua própria sanidade, enquanto a maternidade e um casamento desgastado funcionam como catalisadores para uma psicose crescente. O cenário deveria ser o palco para um thriller psicológico sobre os limites da mente feminina sob pressão, mas Lynne Ramsay parece mais interessada em criar quadros bonitos de dor do que em contar uma história coesa.
Se há algo que não se pode negar a Lynne Ramsay é o seu domínio técnico sobre a imagem e o som. Em Morra, Amor, a diretora opta por uma fotografia em 35mm que confere à obra uma textura granulada, suja e quase tátil. Eu senti que a intenção era fazer com que o calor e a poeira daquele ambiente rural atravessassem a tela, criando uma atmosfera de desconforto constante que, nos seus melhores momentos, é realmente asfixiante.
No entanto, toda essa sofisticação técnica esbarra em uma barreira intransponível: a montagem irregular. O filme tenta operar na lógica do fluxo de consciência, fundindo alucinação e rotina de maneira que deveria ser desorientadora, mas que acaba sendo apenas frustrante. A edição corta abruptamente cenas de tensão para momentos de contemplação vazia, quebrando qualquer ritmo que a narrativa tentasse estabelecer.
Em vez de criar um suspense crescente, essa fusão mal executada entre o real e o imaginário gera apatia. Chega um ponto em que deixamos de nos importar se o que estamos vendo é verdade ou delírio, porque o filme não nos dá motivos suficientes para investir emocionalmente naquela espiral de loucura. A beleza da película em 35mm acaba servindo apenas como uma embalagem luxuosa para um roteiro que anda em círculos, incapaz de decidir se quer ser um drama familiar ou um filme de terror surrealista.
Jennifer Lawrence: O grito no vácuo
Diante de um material que oscila entre o genial e o pretensioso, é Jennifer Lawrence quem carrega o peso do mundo, e do filme, nas costas. Sua performance é, sem dúvida, o elemento que mantém Morra, Amor vivo. A atriz se despe de qualquer vaidade para entregar uma atuação forte, física e dolorosamente crua. Lawrence consegue transmitir, muitas vezes sem dizer uma única palavra, o desespero de uma mulher que se sente devorada pelas expectativas sociais da maternidade e do casamento.
Infelizmente, o mesmo não pode ser dito sobre o aproveitamento do elenco de apoio. Robert Pattinson, interpretando o marido, e Lakeith Stanfield, como o objeto de desejo e vizinho, são criminosamente subutilizados. Pattinson, um ator que já provou sua capacidade de criar personagens complexos e perturbadores, aqui é reduzido a uma figura quase decorativa.
A dinâmica entre o casal, que deveria ser o coração do conflito, soa artificial, não por falha dos atores, mas porque o roteiro não lhes dá espaço para respirar além dos arquétipos. Stanfield sofre do mesmo mal, entrando e saindo da trama como um fantasma, servindo apenas como mais uma peça no tabuleiro confuso da mente da protagonista.
Maternidade, psicose e o tédio do horror rural
A adaptação do livro de Ariana Harwicz tinha o potencial de explorar o “terror da maternidade” com uma acidez que o cinema raramente tem coragem de mostrar. O tema da mãe que não ama, ou que ama de forma distorcida e violenta, é um tabu poderoso. No entanto, o filme trata a psicose e a depressão pós-parto (ou qualquer que seja a condição exata, já que o filme se recusa a diagnosticar) mais como um fetiche estético do que como uma condição humana.
O cenário rural, que deveria evocar o isolamento existencial, acaba caindo nos clichês do gênero “gótico rural”. Temos a casa velha, a natureza, os vizinhos estranhos, mas tudo parece montado para chocar, não para contar uma história. A tentativa de fundir o drama com elementos de horror psicológico falha porque o filme não constrói uma base sólida de realidade antes de mergulhar no delírio.

Veredito, será que vale a pena?
Morra, Amor é um exemplo clássico de cinema que tropeça na própria ambição. O filme tem potência, inegavelmente. O impacto visual existe, a atmosfera de pesadelo é palpável e Jennifer Lawrence entrega uma boa atuação. No entanto, o impacto emocional não vem exatamente de onde o filme imagina. Em vez de finalizarmos o filme devastados pela tragédia da personagem, saímos exaustos pela repetição e frustrados pelo desperdício de talento.
Lynne Ramsay cria um ambiente de desconforto constante, onde maternidade, isolamento e desejo se cruzam de forma sufocante, mas esquece que o desconforto, por si só, não sustenta uma narrativa de longa-metragem. Falta arco, falta desenvolvimento e, principalmente, falta um propósito claro para tanto sofrimento em tela. Por isso, a nota que nós do 365 Filmes damos a esse longa, é 2.
Se você é um fã incondicional de Jennifer Lawrence ou aprecia o cinema sensorial que prioriza a forma sobre o conteúdo, pode encontrar valor na experiência. Mas se procura uma história que honre a complexidade de seus temas com um roteiro à altura, Morra, Amor será uma decepção.
Crítica de Morra, Amor
Morra, Amor é um exemplo clássico de cinema que tropeça na própria ambição.
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