Filmes em formato found footage já foram moda, sofreram desgaste e agora vivem pequena retomada graças à nostalgia. No meio desse vai-e-vem, As Above, So Below (2014) continua chamando atenção por manter o público preso à cadeira do início ao fim.
Mais de uma década depois, a aventura claustrofóbica dirigida por John Erick Dowdle ainda reúne ingredientes simples, porém eficientes: elenco entregue, ritmo frenético e um uso inteligente das catacumbas de Paris como cenário. A seguir, analisamos como essas peças se encaixam para sustentar o longa.
Elenco mergulha no medo e sustenta a tensão
O filme acompanha Scarlett, vivida por Perdita Weeks, arqueóloga obcecada pela Pedra Filosofal. Weeks transita entre a autoconfiança de quem domina vários idiomas e o pânico de quem percebe ter ido longe demais. Sua postura física — sempre em movimento, câmera em punho — transmite urgência e convida o espectador a seguir seu olhar.
Ben Feldman, como George, funciona como contraponto racional, oferecendo respiros cômicos enquanto questiona cada passo do grupo. Já Edwin Hodge interpreta Benji, operador da câmera, amplificando o desespero com sua respiração ofegante. O trio parisiense formado por François Civil, Marion Lambert e Ali Marhyar acrescenta sotaque local e reforça o clima de improviso típico de expedições ilegais.
Direção de John Erick Dowdle: ritmo acima de tudo
John Erick Dowdle, que também assina o roteiro ao lado do irmão Drew, entende que o found footage pede urgência. Ele evita exposições longas: em menos de cinco minutos, a trama já desaba em túneis apertados. Essa escolha dribla falhas de lógica — existem várias — e mantém a pulsação alta durante 93 minutos.
Dowdle ainda dosa movimentos de câmera na medida. Não há excesso de tremedeira gratuita; quando a imagem sacoleja demais, é porque algo realmente ameaça os personagens. Essa disciplina de linguagem lembra a forma como produções recentes como Iron Lung enxergam o found footage: estética a serviço da imersão, não um truque para esconder furos.
Efeitos práticos e ambientação transformam catacumbas em labirinto infernal
O grande trunfo de As Above, So Below está na cenografia. Os corredores reais das catacumbas parisienses já são assustadores; com iluminação mínima e sons abafados, viram um pesadelo. A equipe de maquiagem intensifica essa atmosfera com aparições cadavéricas que surgem de cantos mal iluminados.
Quando o roteiro abraça referências a Dante e a mitologia, a produção responde com detalhes visuais convincentes: paredes que sangram, túmulos desmoronando e um poço invertido que desafia a gravidade. Pouco é mostrado de uma vez; o terror nasce do que se ouve ou pressente. Essa economia lembra o humor econômico de Kung Fu Panda 4, que, em registro totalmente diferente, usa timing cirúrgico para arrancar risadas.
Imagem: Imagem: Divulgação
Roteiro tropeça, mas não atrapalha a experiência
Quem procura lógica impecável vai esbarrar em incoerências: personagens ignoram saídas óbvias, resolvem enigmas complexos em segundos e carregam equipamento de ponta sem explicação. Paradoxalmente, essas falhas alimentam a diversão. O público ri nervoso a cada escolha absurda e, com isso, se envolve ainda mais.
Tais concessões lembram o debate sobre dar uma segunda chance a produções subestimadas, como discutido em O Justiceiro de 1989. No caso de As Above, So Below, o absurdo vira tempero, não obstáculo, pois o elenco vende cada reação com honestidade surpreendente.
Vale a pena assistir hoje?
Mesmo com nota modesta na crítica especializada, o longa ganhou status de cult entre fãs de terror. A montagem ágil, som ambiente sufocante e atuações comprometidas seguem capazes de prender quem gosta de adrenalina.
Para novos espectadores, As Above, So Below oferece porta de entrada acessível ao subgênero found footage. O filme não inventa a roda, mas aplica cada engrenagem com competência e entrega um clímax que justifica a jornada pelos nove círculos idealizados por Dante.
Se você é leitor assíduo do 365 Filmes, já sabe: produções que dividem opinião merecem olhar atento. A obra de Dowdle pode até não resolver todos os enigmas, porém deixa uma certeza — uma descida às catacumbas francesas raramente foi tão eletrizante.
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