A proposta de Day One, nova série espanhola do Prime Video, parecia perfeita para o momento atual. A trama mistura suspense tecnológico, inteligência artificial e manipulação de comportamento humano em um cenário que existe de verdade: o Mobile World Congress, um dos maiores eventos de tecnologia do planeta.
A série parte de uma pergunta inquietante que conversa diretamente com a era digital. E se uma tecnologia fosse capaz de influenciar emoções humanas em escala global? Em um mundo onde algoritmos já moldam opiniões, compras e até decisões políticas, a ideia parece menos ficção do que gostaríamos de admitir.
No entanto, o que poderia ser um suspense tecnológico poderoso acaba revelando um problema mais profundo. Day One tenta discutir assuntos complexos demais sem desenvolver personagens e conflitos na mesma intensidade, criando uma narrativa que parece grande, mas que raramente prende o espectador.
Isso ajuda a explicar a recepção fria do público. Com nota 2.9 no IMDb, a produção rapidamente passou a ser vista mais como uma curiosidade do catálogo do streaming do que como uma série capaz de realmente marcar o gênero.
Um thriller tecnológico com ideias fortes, mas execução irregular
A história acompanha Ulises Albet, interpretado por Álex González, um antigo prodígio da computação que decidiu abandonar completamente a indústria tecnológica após uma tragédia familiar que mudou sua vida para sempre.
Anos antes, sua irmã tirou a própria vida depois de sofrer bullying, um trauma que nunca foi totalmente resolvido pelo protagonista. Esse evento se torna a base emocional da série, explicando por que Ulises decide se afastar de tudo que envolve tecnologia e poder corporativo.
Dez anos depois, um telefonema inesperado o obriga a voltar para Barcelona, cidade onde seu passado e sua carreira se cruzam de forma dolorosa. O retorno acontece justamente durante a semana do Mobile World Congress, momento em que executivos, investidores e engenheiros dominam a cidade.
Nesse cenário de inovação constante, um assassinato misterioso coloca Ulises novamente dentro da indústria que ele tentou abandonar. A partir desse momento, Day One começa a se transformar em uma história de investigação e perseguição.
Durante a busca por respostas, o protagonista descobre que uma empresa está prestes a lançar uma tecnologia capaz de influenciar emoções, decisões e comportamentos humanos através da comunicação digital.
O sistema promete revolucionar a maneira como as pessoas se conectam online. No entanto, conforme Ulises investiga mais profundamente o projeto, fica claro que essa inovação pode se tornar algo muito mais perigoso do que qualquer rede social já criada.
O roteiro tenta construir tensão em torno dessa descoberta, mas revela cedo demais qual é o verdadeiro plano por trás da tecnologia. Isso faz com que parte do suspense desapareça rapidamente, deixando a narrativa previsível antes mesmo de chegar ao meio da temporada.
Em vez de construir um mistério que cresce aos poucos, Day One prefere acelerar os acontecimentos, o que acaba reduzindo o impacto das revelações que deveriam sustentar a série.
Quando o debate sobre tecnologia vira apenas pano de fundo
Um dos elementos que ajudam a sustentar a narrativa é a presença de Rebecca, personagem interpretada por Alba Planas. Ela surge inicialmente como alguém envolvida de forma circunstancial na investigação, mas rapidamente se torna uma aliada importante para Ulises.
A parceria entre os dois personagens poderia ser um dos pontos mais fortes da série. Em vez de apostar em um romance imediato, Day One tenta construir uma relação baseada em colaboração, tensão e desconfiança gradual.
A ideia é interessante, mas novamente esbarra no ritmo da produção. Como a temporada possui apenas seis episódios de cerca de 40 minutos, muitos conflitos aparecem e desaparecem antes de realmente ganhar peso dramático.
Mesmo assim, há momentos em que a série toca em temas realmente relevantes. A discussão sobre controle de dados, manipulação emocional e influência algorítmica reflete debates que já fazem parte da vida digital contemporânea.
Hoje, plataformas digitais já influenciam escolhas de consumo, comportamento social e até decisões políticas. Day One tenta transformar essa realidade em ficção, sugerindo um cenário onde essa influência se torna ainda mais poderosa.
O problema é que a série raramente aprofunda essas ideias. Em vez de explorar as implicações filosóficas de uma tecnologia capaz de manipular emoções humanas, o roteiro opta por seguir um caminho mais tradicional de thriller corporativo.
Nesse modelo, uma grande empresa ultrapassa limites éticos em nome da inovação enquanto um pequeno grupo tenta impedir o desastre antes que seja tarde demais. É uma estrutura conhecida e que funciona bem em muitos casos.

Mas aqui ela parece simples demais para o tamanho das ideias que a série apresenta. A ambientação em Barcelona e o clima do congresso tecnológico ajudam a criar um cenário interessante, cheio de encontros corporativos e corredores cheios de segredos.
Ainda assim, atmosfera sozinha não sustenta uma narrativa inteira. Sem personagens mais profundos e sem um suspense que realmente evolua ao longo da temporada, a série acaba perdendo o impacto que sua premissa prometia.
No final das contas, Day One parece sempre a poucos passos de se tornar uma história realmente provocativa, mas nunca mergulha totalmente nas próprias questões que levanta.
Para quem gosta de histórias sobre tecnologia, conspirações digitais e dilemas éticos, a série ainda pode despertar curiosidade. Mas é difícil ignorar a sensação de que essa produção tinha potencial para ser muito mais inquietante do que realmente é.
Day One
No final das contas, Day One parece sempre a poucos passos de se tornar uma história realmente provocativa, mas nunca mergulha totalmente nas próprias questões que levanta.
Para quem gosta de histórias sobre tecnologia, conspirações digitais e dilemas éticos, a série ainda pode despertar curiosidade. Mas é difícil ignorar a sensação de que essa produção tinha potencial para ser muito mais inquietante do que realmente é.
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