Kevin Costner voltou a aparecer para o grande público graças a um faroeste que, em 1994, parecia condenado ao esquecimento. Wyatt Earp, produção dirigida por Lawrence Kasdan, ressurgiu nas buscas e entrou no Top 10 de filmes mais vistos da Netflix nos Estados Unidos nesta sexta-feira, 2 de fevereiro.
O fenômeno ocorre em um momento curioso: o astro abandonou a série Yellowstone neste ano e ainda não sabe se sua ambiciosa saga cinematográfica Horizon chegará aos cinemas. Enquanto o futuro de Costner nos westerns vive uma pausa, o passado do ator encontra plateia disposta a encarar três horas de duelos, romance e política de fronteira.
Retomada inesperada na plataforma
Lançado em 24 de junho de 1994 com orçamento de US$ 63 milhões, Wyatt Earp arrecadou apenas US$ 55,9 milhões, valor insuficiente para cobrir os custos de produção e marketing. Três décadas depois, o longa ocupa a oitava posição no ranking diário da Netflix, à frente de comédias recentes e atrás de thrillers que lideram a lista.
A volta por cima coincide com um hiato na filmografia de Costner. O ator rompeu com Yellowstone em 2024 e ainda aguarda a definição da série de filmes Horizon: An American Saga. Enquanto isso, ele assina como produtor executivo da minissérie The Gray House, sobre a Guerra Civil, que estreia no Prime Video em 26 de fevereiro. Essa pausa involuntária acaba impulsionando a busca por trabalhos anteriores do astro, prática comum entre assinantes que maratonam carreiras inteiras no streaming.
Atuações em foco: Costner, Quaid e elenco estelar
Costner interpreta Wyatt Earp em fases distintas da vida do lendário xerife, começando pela juventude no Missouri até o célebre confronto no O.K. Corral. A complexidade temporal exige do ator transitar de um fazendeiro retraído a um homem de lei endurecido pelos anos de violência. Embora alguns críticos julguem sua performance contida demais, o público elogia a consistência de gestos e sotaque ao longo das diferentes idades do personagem.
O destaque frequente da imprensa especializada recai sobre Dennis Quaid. No papel de Doc Holliday, o astro mergulha em tosse crônica, olhar febril e carisma debochado. Gene Hackman, Catherine O’Hara, Isabella Rossellini e Bill Pullman integram um elenco de apoio que garante densidade dramática mesmo em cenas curtas. A reunião desse grupo reforça a tradição hollywoodiana de investir em nomes fortes para ambientar relatos históricos, prática vista também em épicos de artes marciais como Swordsman and Enchantress.
Direção de Lawrence Kasdan e roteiro ambicioso
Conhecido por Caçadores da Arca Perdida e O Reencontro, Kasdan volta a dividir a escrita com Dan Gordon. A dupla aposta numa macrobiografia de 191 minutos, cobrindo infância, Guerra Civil, trabalho como cocheiro e o clímax no Arizona. A estratégia, porém, provocou acusações de narrativa dispersa. Muitos críticos consideram o recorte amplo demais, fazendo com que passagens relevantes recebam atenção pontual enquanto subtramas ganham tempo excessivo.
Ainda assim, a direção de fotografia privilegia paisagens do Velho Oeste em cinemascope, recurso que ajuda a dimensionar figura humana versus imensidão da pradaria. É a mesma lógica que mantém clássicos dialogados entre os títulos mais eletrizantes do cinema, de acordo com a lista de filmes guiados por diálogo publicada aqui no 365 Filmes. Em termos de linguagem, Kasdan utiliza travellings e planos abertos para ressaltar o isolamento dos personagens, contrapondo-os a interiores escuros iluminados por lampiões – solução que reforça o simbolismo de civilização versus barbárie.
Imagem: Imagem: Divulgação
Comparações inevitáveis com Tombstone e recepção crítica
Como parte de um raro caso de “filmes gêmeos”, Wyatt Earp chegou aos cinemas seis meses depois de Tombstone, longa dirigido por George P. Cosmatos com Kurt Russell na pele do mesmo lawman. Enquanto Tombstone lucrou cerca de US$ 73 milhões e virou cult, o projeto protagonizado por Costner amargou prejuízo e críticas medianas: 31 % no Rotten Tomatoes, contra 72 % do concorrente.
Entre as avaliações registradas em 1994, havia consenso de que o elenco de Kasdan merecia aplauso, mas o ritmo cadenciado, aliado ao arco de personagens secundários, dificultava a conexão emocional. O público, porém, ofereceu um índice mais generoso de 61 % na mesma plataforma, prova de que a experiência de assistir em casa, com pausa e retorno a qualquer momento, talvez se ajuste melhor ao formato extenso escolhido pelos roteiristas.
Wyatt Earp na Netflix: vale a pena revisitar?
Para quem busca aprofundar a história do lendário xerife e prefere uma abordagem cronológica, Wyatt Earp se destaca como registro detalhado da formação de um mito. São quase três horas que permitem observar o crescimento do personagem, as nuances de sua relação familiar e a gradual formação da lenda.
Os fãs de atuações sólidas encontrarão em Dennis Quaid um Doc Holliday fisicamente transformado, além de um elenco que inclui participações de nomes que, mais tarde, brilharam em produções de grande orçamento. Mesmo com a trama fragmentada, cada ator tem chance de deixar marca, reforçando a qualidade interpretativa que o tempo acabou valorizando.
No fim das contas, o atual sucesso na Netflix oferece oportunidade para quem perdeu o filme nos anos 1990 ou deseja compará-lo a competidores diretos. Com isso, o faroeste de Kevin Costner prova que fracassos de bilheteria não são sentenças definitivas, principalmente quando o streaming reabre as porteiras para o viajante curioso.
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