Lançado em agosto de 2017, A Torre Negra chegou aos cinemas prometendo inaugurar uma nova franquia baseada na obra mais ambiciosa de Stephen King, mas acabou acumulando um índice de apenas 16% no Rotten Tomatoes e um público dividido, que lhe garantiu 44% de aprovação.
Mesmo com críticas pesadas, o longa colocou dois astros do primeiro escalão em cena — Idris Elba e Matthew McConaughey —, fato que mantém viva a discussão: havia potencial para algo maior? No 365 Filmes revisitamos o projeto para entender como atuações, direção e roteiro se chocaram com a expectativa.
A presença magnética de Idris Elba não evita o naufrágio
Interpretar Roland Deschain exigia gravidade e carisma, atributos que Idris Elba entrega com naturalidade. Seus gestos contidos, a dicção quase seca e o olhar desconfiado conferem ao pistoleiro um peso dramático que o roteiro pouco explora. Ainda assim, cada aparição reforça a sensação de que o personagem poderia sustentar uma narrativa inteira sozinho.
Com apenas 95 minutos de duração, o filme lhe oferece microdoses de desenvolvimento. Quando Roland treina o jovem Jake (Tom Taylor) ou dispara dois revólveres em sequência, Elba chama a atenção e sugere uma complexidade nunca plenamente revelada. Faltou tempo — e material dramático — para o ator mostrar o alcance que já demonstrara em dramas como Beasts of No Nation.
Matthew McConaughey e o elenco de apoio ficam na penumbra
Do outro lado, Matthew McConaughey surge como o Homem de Preto, antagonista que mistura cinismo e misticismo. Conhecido por inserir charme debochado em personagens dúbios, o texano aqui parece engessado. A atuação é correta, mas o texto não fornece diálogos ou motivações que lhe permitam brincar com tons, algo que McConaughey executa com maestria em True Detective.
Essa limitação ecoa no restante do elenco. Claudia Kim, Jackie Earle Haley e o próprio Tom Taylor raramente ganham tempo de tela suficiente para criar empatia. O resultado é um conjunto que passa rápido demais para deixar marca — problema semelhante ao visto em títulos como Mercy, já criticado pela mesma superficialidade.
Direção de Nikolaj Arcel: ambição sufocada pelo formato
Nikolaj Arcel, indicado ao Oscar por A Royal Affair, assume a câmera com a missão de condensar oito livros em um único capítulo. A escala exigia, porém, liberdade de duração ou o apoio de uma série complementar — ideia discutida na pré-produção mas abortada após o fracasso crítico.
Arcel busca ritmo frenético, alternando ação em Nova York e incursões ao Mundo Médio, porém o resultado soa fragmentado. A urgência narrativa sacrifica construção de atmosfera, justamente o que torna os livros tão hipnóticos. Há, contudo, lampejos de criatividade, como a sequência em que Roland pressente a presença do inimigo em meio a multidões, recurso de mise-en-scène que revela o talento do diretor para o suspense.

Imagem: Evan D
O cineasta também precisava equilibrar estética sombria com classificação PG-13. Essa escolha, motivada por alcance comercial, eliminou a possibilidade de explorar o horror adulto que King imprime nas páginas — contraste que lembra o esforço de certas franquias para suavizar conteúdo, caso da anunciada adaptação de Masters of the Universe.
Roteiro de Akiva Goldsman dilui a essência de Stephen King
Vencedor do Oscar por Uma Mente Brilhante, Akiva Goldsman reuniu Anders Thomas Jensen, Jeff Pinkner e o próprio Arcel para comprimir a saga de King em uma narrativa introdutória. O grupo escolheu partes centrais do primeiro livro e adicionou elementos de continuações, estratégia que deixou a trama expositiva e, ao mesmo tempo, rasa.
Goldsman ganhou elogios do próprio autor — King declarou que o roteirista fez “um trabalho excelente ao concentrar o núcleo da história”. Porém, fãs sentiram falta do lado mais experimental, das criaturas híbridas entre ficção científica e faroeste, e do terror gráfico que define a série literária. Sem essas camadas, o filme parece genérico dentro do gênero fantasia.
Além disso, a escritura opta por diálogos diretos, evitando digressões psicológicas. Essa linearidade facilita a compreensão do espectador casual, mas limita o espaço para nuances de caráter, exatamente o que poderia reforçar as performances de Elba e McConaughey.
A Torre Negra vale a sessão?
Com 95 minutos, bom elenco e equipe premiada, A Torre Negra oferece picos de entretenimento, especialmente quando Idris Elba assume o protagonismo. No entanto, montagem apressada, classificação etária restrita e roteiro condensado impedem que o potencial da obra de Stephen King floresça. Para quem busca um estudo de personagem ou a atmosfera inquietante dos livros, o filme fica devendo; para curiosos sobre o embate entre dois atores carismáticos, trata-se de um exercício interessante, ainda que imperfeito.
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