Em 6 de fevereiro, a Netflix acrescenta ao catálogo norte-americano o remake de Overboard (2018), comédia romântica que faturou US$ 91 milhões nos cinemas mesmo sob críticas duras. A produção retoma a trama imortalizada por Kurt Russell e Goldie Hawn em 1987, trocando os papéis de gênero e apostando no carisma de Anna Faris e Eugenio Derbez para conquistar nova audiência.
O movimento do streaming devolve os holofotes ao longa dirigido por Rob Greenberg, roteirizado por ele em parceria com Leslie Dixon e Bob Fisher, e abre espaço para uma reavaliação das performances, da direção e do texto que sustentam a releitura. Abaixo, 365 Filmes mergulha nessa análise.
Aposta cômica: a química entre Anna Faris e Eugenio Derbez
O remake de Overboard inverte a premissa original: desta vez, é o milionário Leonardo Montenegro (Derbez) que perde a memória e vira alvo da vingança de Kate Sullivan (Faris). A dinâmica sustenta boa parte do humor, já que a atriz de Mom explora seu timing costumeiro de comédia física, enquanto Derbez alterna espanhol e inglês para compor um playboy arrogante que, repentinamente, precisa trocar iate por macacão de trabalho.
Faris entrega expressões exageradas e reações rápidas, marcas registradas que remetem ao que Adam Sandler faz em seus melhores momentos. Já Derbez, conhecido internacionalmente por Não Se Aceitam Devoluções, cria um contraste entre o narcisismo inicial e a vulnerabilidade que surge ao longo da trama. O choque cultural, explorado em piadas de sotaque e costumes, reforça o ritmo ágil exigido pelo roteiro.
Roteiro e direção: modernização sem ousar demais
Leslie Dixon, roteirista do filme de 1987, retorna como corroteirista aqui, o que garante fidelidade estrutural à história original. Rob Greenberg, egresso de séries como How I Met Your Mother, assume a direção e opta por uma linguagem televisiva: cortes rápidos, planos fechados nos rostos dos protagonistas e trilha leve sublinhando cada gag.
O texto acerta ao evitar piadas que envelheceram mal na obra de Garry Marshall, mas escorrega quando insiste em explicações óbvias. Ainda assim, há tentativas de frescor, por exemplo ao transformar Kate em mãe solo que luta por três empregos—ainda que isso se resolva rapidamente. Assim como em Ex Machina, citado pela própria Netflix entre os lançamentos de fevereiro, a atualização de contexto é visível; porém, ao contrário do sci-fi de Alex Garland, Overboard não quer provocar discussões profundas.
Repercussão crítica e números de bilheteria
Nos Estados Unidos, o filme estreou em segundo lugar no fim de semana pós-Avengers: Infinity War. O montante final de US$ 91 milhões, frente ao orçamento modesto de US$ 12 milhões, comprova a força de Faris e Derbez como chamariz comercial. O desempenho, contudo, não se refletiu em avaliações: no Rotten Tomatoes, o longa amarga 24 % de aprovação crítica, embora registre 54 % entre o público.
Imagem: Imagem: Divulgação
Os críticos apontaram falta de originalidade e ritmo irregular, mas não deixaram de reconhecer a entrega dos protagonistas. A química do casal garantiu três indicações ao Teen Choice Awards, todas na categoria de comédia. A perda para Love, Simon não apaga o mérito de colocar a produção de volta à conversa pop, reforçando o apelo que agora pode ganhar fôlego no streaming.
Lugar na estante de remakes oitentistas
Comparar o remake de Overboard com o filme de 1987 é inevitável. A comédia de Garry Marshall, embora tenha arrecadado apenas US$ 26,7 milhões, virou cult graças à química entre Hawn e Russell. Metade do charme residia no subtexto de crítica de classe, algo que a releitura tenta reproduzir, mas com menor sutileza.
Mesmo sob críticas, Greenberg entrega um produto de entretenimento leve, que dialoga com a audiência que consome romances despretensiosos na Netflix. O movimento de incluir o título no catálogo também mira assinantes em busca de feel-good movies, estratégia semelhante à adotada quando o serviço disponibilizou a filmografia recente de James Bond, abrindo debate sobre atuação e direção em grandes franquias.
Vale a pena dar play no remake de Overboard?
Para quem procura 112 minutos de escapismo, a resposta é sim: a produção cumpre o que promete em termos de humor leve e romance previsível. Os fãs de Anna Faris encontrarão nela os trejeitos que a tornaram queridinha em Todo Mundo em Pânico, enquanto admiradores de Eugenio Derbez verão o ator transitar com naturalidade entre espanhol e inglês, reforçando o aspecto multicultural que faltava à versão original.
Por outro lado, quem busca uma reinvenção ousada pode sair frustrado. A direção de Rob Greenberg raramente se distancia da cartilha do mid-budget hollywoodiano, e o roteiro evita riscos ao se manter fiel à estrutura da década de 80. Ainda assim, o timing cômico dos leads e o elenco de apoio — destaque para Eva Longoria e Mel Rodriguez — sustentam o filme.
No fim, o remake de Overboard funciona como passatempo confortável, que ganha nova chance de ser descoberto ou revisto a partir de 6 de fevereiro. Entre as novidades do mês no streaming, ao lado de Primitive War e outras apostas, a comédia romântica se apoia na química de seu casal central para segurar o público que valoriza atuações carismáticas acima de grandes inovações narrativas.
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