Indicado como um dos títulos mais festejados da Argentina nos últimos anos, O Cidadão Ilustre chegou à HBO Max com o peso de ter conquistado o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza. A comédia dramática de 2016, conduzida pela dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat, gira em torno do escritor Daniel Mantovani, laureado com o Nobel e obrigado a encarar os fantasmas de sua cidade natal.
Com humor ácido e reflexões sobre arte, vaidade e pertencimento, o longa encontra seu ponto forte na performance central e na precisão com que roteiristas e diretores desmontam a figura do “filho pródigo”. O resultado é um estudo de personagem que intercala sarcasmo e tensão sem perder o ritmo.
Oscar Martínez dá alma a Daniel Mantovani
A vitória de Oscar Martínez em Veneza não veio por acaso. O ator sustenta cada cena com ironia elegante, alternando sede de reconhecimento e desprezo pelo provincianismo que o acolhe. Sua entonação carrega o tédio de quem já coleciona honrarias, mas ainda se vê vulnerável quando confrontado com um passado que insiste em lembrá-lo de onde veio.
Martínez transita pela comédia e pelo drama com naturalidade. Nos momentos em que Mantovani desfere críticas ferinas à política cultural da pequena Salas, o intérprete dosa cinismo e frustração de forma quase musical. O público acompanha um protagonista que tenta manter o verniz intelectual enquanto se deixa corroer pelo ressentimento, elemento que a câmera enfatiza em close-ups discretos e eficazes.
Direção afiada de Cohn e Duprat
Mariano Cohn e Gastón Duprat, já conhecidos pelo olhar satírico sobre o mundo da arte, apostam numa encenação sóbria, quase documental. Eles evitam movimentos de câmera espalhafatosos e confiam na força dos diálogos e na energia dos intérpretes. Essa contenção realça o desconforto crescente de Mantovani, preso a cerimônias, condecorações e jantares que pouco lhe dizem.
O desenho sonoro, discreto, reforça o constrangimento que permeia a narrativa; silêncios longos distendem a comédia até flertar com o thriller moral. Ao mesmo tempo, a dupla de diretores povoa o quadro com detalhes provincianos: placas comemorativas, prédios municipais e interiores de clubes, que materializam a armadilha emocional montada para o escritor.
Roteiro provoca dilemas sobre arte e ego
Embora O Cidadão Ilustre abrace o formato de comédia, o texto recusa saídas fáceis. Schopenhauer é citado como contraponto filosófico para discutir a natureza da vontade humana, e o aspecto literário surge como espelho do próprio filme: tudo aquilo que parece honraria pode esconder submissão a um sistema de valores. A fala de Mantovani no Nobel, logo no início, lança as bases temáticas que perpassam o enredo.
Imagem: Imagem: Divulgação
Cohn e Duprat, também responsáveis pelo argumento, munem a história de incidentes que humilham o protagonista gradualmente. Ao aceitar ser jurado de um concurso de pintura ou participar de uma carreata kitsch, Mantovani se confronta com o abismo entre a estética pura que defende e as demandas populares que o cercam. Cada novo desafio amplia a tensão até o inevitável rompimento, quando seu discurso inflamado põe o vilarejo em polvorosa.
Elenco de apoio sustenta o sarcasmo
Além de Oscar Martínez, o filme conta com personagens secundários vitais para sustentar o tom satírico. O prefeito adulador, o artista plástico rancoroso e antigos amigos que hoje o veem como celebridade formam um coro que envolve Mantovani numa atmosfera de reprovação velada. Cada um deles apresenta motivações rasas ou mesquinhas, o que torna mais evidente o conflito entre fama e autenticidade.
Esse conjunto funciona como espelho distorcido do escritor: enquanto busca reafirmar sua superioridade intelectual, ele se vê dependente da aprovação de figuras que despreza. A dinâmica imprime ritmo ágil ao longa, sem que as subtramas desviem o foco da crise central. Para o espectador do 365 Filmes, o resultado é uma experiência que diverte e instiga em igual medida.
Vale a pena assistir O Cidadão Ilustre?
Simples na forma e complexo nas ideias, O Cidadão Ilustre se sustenta pela atuação certeira de Oscar Martínez e pela habilidade de Mariano Cohn e Gastón Duprat em expor vaidades sem didatismo. O filme combina humor mordaz, críticas à indústria cultural e questionamentos sobre o papel do artista, entregando uma obra que conquista quem procura entretenimento temperado com reflexão.
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