Uma casa em Londres, dois meninos e um pai que não sabe como continuar depois da morte repentina da esposa. É nesse ponto que Benedict Cumberbatch se joga em “The Thing with Feathers”, adaptação do celebrado livro de Max Porter. O longa, descrito pelo ator como “Mary Poppins encontra Fight Club”, tenta traduzir para a tela uma história de luto contada de forma nada convencional.
Dirigido por Dylan Southern em seu primeiro trabalho de ficção, o filme estreou no Festival de Sundance de 2025, passou por Berlim e chegou ao Reino Unido e Irlanda em 21 de novembro. Desde então, a produção divide opiniões: mantém 52% de aprovação no Rotten Tomatoes, mas recebe aplausos quase unânimes pela entrega de Cumberbatch.
Gravações desafiadoras e um corvo de três intérpretes
Em “The Thing with Feathers”, Cumberbatch vive simplesmente “Dad”, um cartunista cuja rotina tranquila implode após a tragédia familiar. Quando o luto parece insuportável, surge um enorme Corvo antropomórfico, manifestação física da dor que invade a casa. No set, esse Corvo teve três etapas: o corpo em cena foi do francês Eric Lampaert, as falas ganharam voz de David Thewlis e, claro, o texto nasceu nos versos sombrios de Ted Hughes, referência direta do protagonista.
Segundo Cumberbatch, Thewlis só entrou oficialmente após as filmagens. Até lá, o ator contracenava com Lampaert sobre pernas de pau, que repetia falas em tom neutro enquanto o protagonista fazia uma espécie de mímica para que Thewlis completasse depois em estúdio. A estratégia, pensada por Southern, garantia liberdade total na montagem para tornar a criatura mais ameaçadora ou reconfortante, conforme o ritmo da história.
De uma novela “infilmável” ao roteiro de Dylan Southern
Max Porter lançou a novela “Grief Is the Thing with Feathers” em 2015 e, desde então, a obra era vista como quase impossível de filmar por seu formato fragmentado. Cumberbatch conta que leu o texto há dez anos e acompanhou a montagem teatral estrelada por Cillian Murphy, mas só se sentiu pronto para o cinema quando recebeu o “roteiro mágico” de Southern. O diretor expandiu alguns trechos, tornou outros mais literais e defendeu que grandes metáforas podem, sim, caber na tela grande.
Sundance, Berlim e recepção dividida da crítica
A primeira exibição de “The Thing with Feathers” aconteceu em 25 de janeiro de 2025, em Sundance. Ali mesmo, imprensa e público já se mostraram polarizados: parte considerou a abordagem poética brilhante, parte achou confusa. Meses depois, no 75º Festival de Berlim, o cenário se repetiu. Hoje, o filme ostenta 52% no Rotten Tomatoes, índice que não diminui o entusiasmo pelos elogios à atuação intensa de Benedict Cumberbatch.
Para o ator, as reações extremas fazem sentido. Em entrevistas recentes, ele diz que o longa convida cada espectador a “enxergar sua própria história” na relação com o Corvo — símbolo que pode soar violento, acolhedor ou ambos, dependendo da bagagem de quem assiste. Em sessões especiais, viúvos e órfãos já relataram ao astro sentirem-se compreendidos pela metáfora.
Comparações com outros papéis paternos
Curiosamente, 2025 marcou duas interpretações paternas para Cumberbatch. Em “The Roses”, ele vive Theo, um chef que vira pai em tempo integral quando a mulher decide priorizar a carreira. Já em “The Thing with Feathers”, o desafio é lidar com a ausência definitiva da mãe. O ator reconhece que o público pode enxergar repetições, mas afirma que os filmes têm “climas completamente diferentes”.
Em ambas as obras, no entanto, a figura paterna é colocada sob teste. Para quem acompanha novelas e doramas — público fiel do 365 Filmes — é impossível não lembrar de dramas familiares asiáticos que misturam fantasias sutis a questões de perda, o que pode explicar a curiosidade em torno do longa.
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Max Porter no set e parceria criativa
Apesar do caráter autobiográfico do livro, Porter se manteve presente e aberto durante as filmagens. Cumberbatch admite que sentiu medo ao encenar uma história tão pessoal para o autor, que perdeu o pai ainda criança. O resultado foi uma amizade que reforçou o compromisso de todos em honrar o material de origem, sem deixar de experimentar.
Quando “Mary Poppins” cruza com “Fight Club”
A comparação cunhada por Cumberbatch resume bem o tom de “The Thing with Feathers”. De um lado, há um elemento fantástico que invade a casa e dialoga com as crianças, lembrando a babá mágica dos livros infantis. Do outro, a quebra de realidade remete ao caos de Tyler Durden, com cenas que questionam o que é real ou imaginação.
Essa costura de gêneros explica parte do fascínio — e da resistência — em torno do filme. Quem espera um terror puro pode estranhar a poesia; quem busca um drama intimista talvez se assuste com o Corvo gigante. Ainda assim, a produção se destaca como uma das estreias mais comentadas do ano para quem acompanha cinema autoral.
Elenco, estreia e onde assistir
Além de Benedict Cumberbatch como Dad e David Thewlis na voz do Corvo, o elenco traz Lampaert no traje da criatura e os jovens atores que interpretam os filhos. “The Thing with Feathers” segue sem data confirmada para o Brasil, mas negociações indicam lançamento em circuito de arte no primeiro semestre de 2026.
Nos Estados Unidos, a estreia comercial deverá ocorrer logo após a temporada de festivais, ainda no primeiro trimestre de 2026. Até lá, quem se interessar pelo material pode ler o livro de Porter ou acompanhar novidades no site oficial do longa, que reúne trailers e bastidores.
Com uma proposta ousada, um elenco de peso e um diretor estreante apostando alto, “The Thing with Feathers” promete continuar rendendo debates — seja entre críticos de cinema, fãs de Cumberbatch ou leitores que querem ver como o luto ganhou asas no cinema.
