Como transformar um material tão corriqueiro quanto o concreto em matéria-prima para reflexões sobre identidade, arte e capitalismo? O cineasta John Wilson, conhecido pela série How To With John Wilson, encontra a resposta em The History of Concrete, longa exibido no Festival de Sundance de 2026.
A produção de 100 minutos alterna a leveza de um falso telefilme romântico com investigações filosóficas, resultando em uma experiência tão divertida quanto tocante. O 365 Filmes conferiu o filme e destrincha, a seguir, os pontos-chave da obra.
Visão geral da proposta de John Wilson
Wilson iniciou o projeto durante a greve dos roteiristas de 2023, ao descobrir um workshop sobre como escrever filmes para o canal Hallmark. A ideia de aplicar essa estética “açucarada” a um documentário sobre concreto surgiu quase como piada, mas ganhou corpo quando o diretor se tornou síndico de um prédio com infraestrutura precária.
O realizador então viajou por diferentes estados norte-americanos, gentilmente guiando a câmera por canteiros de obras, convenções setoriais e apartamentos em reforma. Esse olhar de flâneur moderno evoca o espírito de Agnès Varda em Os Catadores e Eu, referência constante nas entrevistas do diretor.
Humor e lirismo na montagem
O encanto imediato do longa reside na montagem lúdica: transições suaves unem imagens de rachaduras, festas temáticas e placas publicitárias inusitadas. A narração low-key de Wilson reforça o tom de sátira, evidenciando o contraste entre o pragmatismo do material e a grandiosidade dos discursos de vendas.
Apesar das piadas constantes, o cineasta evita o sarcasmo vazio. Cada gag visual desemboca em alguma conclusão melancólica sobre consumo ou sobre a tentativa humana de deixar marcas permanentes. Essa dinâmica aproxima o filme de outras produções que equilibram adrenalina e contemplação, como o eletrizante The Last First: Winter K2.
Personagens e encontros inesperados
A estrutura episódica do documentário permite o surgimento de figuras peculiares. Entre elas, destaca-se Jack Macco, vendedor de bebidas e vocalista de hard rock que prepara o casamento com uma juíza pioneira em Nova York. Seus monólogos sobre tatuagens, arte e envelhecimento fornecem um contraponto poético ao universo concreto abordado pelo diretor.
Imagem: Imagem: Divulgação
Outro momento memorável acontece em Las Vegas, durante a feira anual da indústria. Wilson registra demonstrações de máquinas de polimento como se fossem coreografias de balé, enquanto executivos exaltam a “beleza” do cimento autorreparável. A ironia surge naturalmente, sem depender de deboches explícitos.
Reflexões sobre arte, comércio e nostalgia
Sem nunca soar professoral, The History of Concrete questiona a obsessão contemporânea por produzir coisas novas e, simultaneamente, pela nostalgia de um passado idealizado. Ao inserir trechos de filmes Hallmark e citações de Guy Debord, Wilson conecta Hollywood, gentrificação e inteligência artificial num mesmo painel.
Quando o diretor comenta a dificuldade de financiar documentários não convencionais, o filme amplia a discussão para a precificação da criatividade. O tema dialoga com a forma como outros títulos recentes, como Wonder Man, expõem os bastidores da indústria do entretenimento.
The History of Concrete vale a pena?
Ao final de seus 100 minutos, The History of Concrete oferece uma combinação rara: riso, reflexão e afeto. A performance discreta de Wilson como narrador-observador ancora tudo, permitindo que o público enxergue profundidade em rachaduras de calçada e mensagens em muros recém-pintados.
Para quem aprecia documentários que transcendem o mero registro factual, o longa desponta como um dos trabalhos mais originais apresentados em Sundance nos últimos anos. Entre tantos filmes sobre crises climáticas ou biografias tradicionais, a obra de John Wilson prova que o olhar atento ainda pode encontrar poesia no lugar menos provável.
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