Luto, culpa e lembranças dolorosas formam a espinha dorsal de See You When I See You, longa exibido no Festival de Sundance 2026. Dirigido por Jay Duplass e roteirizado pelo próprio Adam Cayton-Holland a partir de seu livro de memórias, o filme abraça a difícil tarefa de transformar sessões de EMDR em linguagem cinematográfica.
Embora acerte ao colocar o espectador dentro do processo terapêutico, a produção tropeça em ritmo e depende demais de cenas formulaicas para sustentar a emoção. A seguir, a crítica destrincha as atuações, a condução da câmera e a força — ou falta dela — do texto.
Atuações: quando a dor não convence totalmente
A escolha de Cooper Raiff para viver Aaron, alter ego de Cayton-Holland, parecia promissora. O ator e cineasta já havia demonstrado sensibilidade em trabalhos anteriores, mas aqui sua entrega oscila. Raiff exibe naturalidade nas passagens de humor, porém, quando a narrativa exige fúria ou tristeza genuína, o registro soa pouco orgânico. O espectador compreende o sofrimento porque a situação é brutal, não porque o protagonista traduza tudo no olhar ou no corpo.
O contraste aparece justamente nas presenças mais experientes. Hope Davis, como a mãe que se refugia numa causa ambiental, entrega um retrato minucioso de negação. Cada gesto contido denuncia o temor de encarar o segundo grande abalo — a suspeita de câncer. David Duchovny também encontra espaço para nuança; seu pai agarrado às lembranças materializa o apego físico ao passado, evitando que o drama se resuma a discursos.
Kaitlyn Dever surge em flashbacks como Leah, a irmã que morreu por suicídio. A atriz consegue transmitir vitalidade e afeto, mas o roteiro limita as cenas a momentos “divertidos de bar”, recorrendo a atalhos para mostrar cumplicidade fraterna. Já Ariela Barer, intérprete da enfermeira Camila, revive o arquétipo da “interesse amoroso que traz leveza”. A química com Raiff não flui, e o affair acaba soando protocolar.
Direção de Jay Duplass: intimismo sóbrio, porém previsível
Jay Duplass opta por close-ups insistentes durante as sessões de EMDR, estratégia que coloca a plateia “dentro” da memória traumática de Aaron. A alternância entre o zumbido dos instrumentos terapêuticos e silêncios prolongados funciona para reproduzir a lógica do tratamento, semelhante a como o documentário Time and Water transforma o luto pelos glaciares em poesia visual.
Contudo, fora do consultório, Duplass assume postura mais convencional. Ele recorre a trilha melancólica padrão, montagem que acelera conflitos familiares e uma paleta terrosa já vista em dezenas de dramas independentes. A narrativa avança sem sobressaltos, mas também sem grande personalidade. Em certos momentos, lembra novelas familiares já exploradas em Take Me Home, porém sem a mesma tensão crescente.
Roteiro: honestidade autobiográfica versus estrutura batida
Cayton-Holland mantém o cerne do livro: não há como suprimir lembranças ruins sem suprimir as boas. Essa honestidade — especialidade do 365 Filmes ao abordar obras de memórias — garante admiração imediata. O texto, no entanto, se rende a soluções fáceis. Subtramas surgem e desaparecem rapidamente, como o impacto da possível doença da mãe ou o desgaste do casamento dos pais. A sensação é de “salto” entre cenas-chave, sem o miolo que faria o público sentir o peso cotidiano do luto.
Imagem: Imagem: Divulgação
Em compensação, o roteiro ganha pontos quando abraça a linguagem da terapia. A alternância entre presente e lembrança, acompanhada de estalos auditivos, evita o didatismo de flashbacks explicativos. Há concisão ao ilustrar a mecânica do EMDR: não é apagar a memória, e sim reorganizá-la. Ainda assim, a dramaturgia não escapa de diálogos expositivos, sobretudo quando Aaron verbaliza culpas que já estavam claras na atuação corporal.
Aspectos técnicos e ritmo: quando acelerar atrapalha
Com 102 minutos, See You When I See You tenta equilibrar paciência terapêutica e dinamismo narrativo, mas o relógio se impõe. A fotografia de Kelly Jeffrey aposta em tons desbotados que evocam lembranças desbotadas, ideia pertinente à proposta. A mixagem de som, por sua vez, destaca o pulsar dos buzzeres de mão, elemento essencial na imersão.
O problema reside na montagem. Sequências longas de silêncio convivem com elipses abruptas, criando sensação de quebra. Enquanto o espectador ainda processa a notícia do nódulo da mãe, a trama salta para uma reunião familiar resolutiva. Esse vai-e-vem prejudica o impacto emocional que a direção buscou em planos fechados e silêncios angustiados.
Vale a pena assistir a See You When I See You?
Para quem procura filmes que tratem do luto de forma frontal e curiosa, especialmente pela introdução do EMDR ao grande público, o longa oferece material relevante. A direção segura de Jay Duplass e o texto confessional de Adam Cayton-Holland garantem autenticidade, mesmo que a forma seja pouco inventiva. As atuações contrastantes — irregulares no protagonista, sólidas nos coadjuvantes — podem frustrar parte da audiência, mas não comprometem totalmente a jornada.
Em síntese, See You When I See You não reinventa o gênero, tampouco aprofunda todos os conflitos que levanta. Ainda assim, cumpre o recado de mostrar que encarar a dor é pré-requisito para seguir em frente, ponto fundamental quando se aborda perdas tão devastadoras.
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