“Riot Women” chegou ao catálogo do BritBox com a promessa de misturar menopausa, guitarras distorcidas e a assinatura afiada de Sally Wainwright. Em seis episódios, a criadora de “Happy Valley” volta a provar que domina personagens femininas complexas e situações emocionalmente cruas, costurando humor e tragédia sem jamais perder o pulso narrativo.
O resultado é uma série que prende pela honestidade: enquanto as protagonistas montam uma banda punk de última hora para um show de talentos beneficente, o roteiro revira traumas, medos e pequenas vitórias diárias. A produção não suaviza temas como abuso doméstico, depressão e assédio, mas também encontra espaço para gargalhadas genuínas, embaladas por canções originais que traduzem fielmente a catarse daquelas mulheres.
A força do roteiro de Sally Wainwright
Sally Wainwright escreve personagens femininas como poucas no audiovisual britânico. Em “Riot Women”, ela concentra a ação no Vale de Calder, norte da Inglaterra, dando palco a cinco mulheres na faixa dos 50 que decidem transformar frustração em música. O ponto de partida é simples, quase cômico, mas serve de passarela para explorar luto, saúde mental e invisibilidade social de quem já não se sente ouvida.
Ao longo dos capítulos, Wainwright alterna timbres com habilidade: cortes rápidos pontuam piadas secas, enquanto cenas mais longas permitem que silêncios falem sobre solidão. Não há discursos pesados nem vilões caricatos; a dramaturga prefere conflitos cotidianos, onde os maiores obstáculos estão dentro das próprias personagens. A experiência de “Happy Valley” se reflete na precisão dos diálogos — cada fala parece calibrada para soar real, algo essencial para que o espectador compre a premissa de um grupo amador de punk rock.
Elenco em sintonia: Joanna Scanlan e Rosalie Craig no centro
A tecladista Beth, vivida por Joanna Scanlan, funciona como bússola emocional da temporada. Logo na estreia, a personagem é resgatada de um momento suicida pela amiga baterista Jess, convite que a empurra de volta à vida. Scanlan transmite vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, um senso teimoso de humor que impede a série de escorregar no melodrama. Cada nota no teclado parece vir carregada de dor e esperança.
Rosalie Craig interpreta Kitty, vocalista convocada depois de um karaokê catártico com “Violet”, da banda Hole. A câmera de Brian Tufano — veterano de “Billy Elliot” — capta a explosão de Craig no palco improvisado, criando um contraste com a apatia que a consome fora dele. A química entre Craig e Scanlan sustenta grande parte da narrativa: as duas constroem uma amizade sinuosa, repleta de segredos que se revelam sem pressa, culminando em uma reviravolta que redefine o senso de família dentro do grupo.
Coadjuvantes garantem ritmo e humor
Enquanto Beth e Kitty figuram no centro, Tamsin Greig (Holly) ganha espaço relevante ao investigar casos de misoginia na polícia — subplot que acrescenta tensão institucional à trama. Greig entrega uma ex-detetive sarcástica, mas sempre pronta a proteger quem ama. A presença dela ainda faz ponte para Nisha (Taj Atwal), jovem policial que sofre assédio na corporação.
Imagem: Helen Williams DramaRepublicLtd
Lorraine Ashbourne, como Jess, oferece timing cômico nas baquetas e protagoniza uma reconciliação com a filha que emociona sem exageros. Já Amelia Bullmore, a guitarrista Yvonne, rouba risadas com tiradas rápidas, ainda que seu dia a dia fora dos ensaios receba menos atenção. O saldo é positivo: a montagem ágil de Daniel P. Boyle compensa eventuais lacunas em backstories, mantendo a banda em movimento constante.
Música como catarse: trilha original e estética punk
“Riot Women” apresenta três faixas compostas pela dupla ARXX — “Just Like Your Mother”, “Seeing Red” e a explosiva “Riot Women”. Nenhuma delas pretende dominar paradas de sucesso; o objetivo é refletir a jornada emocional das personagens. Os arranjos crus combinam com a estética de pub pequeno, luzes vermelhas e cabos pelo chão, onde cada acorde soa como desabafo coletivo.
A direção de arte abraça a precariedade: paredes cinza, posters de bandas alternativas e latas de cerveja dispersas criam um ambiente que conversa com a urgência do punk. O figurino acompanha: roupas confortáveis, tênis gastos e, ocasionalmente, um leve toque de glitter que denuncia o desejo de brilho na meia-idade. Esse cuidado visual realça o contraste entre a vida ordinária e os momentos de palco, em que as protagonistas finalmente dominam o próprio espaço.
Vale a pena assistir a “Riot Women”?
Para quem busca drama com autenticidade, ritmo e atuações afiadíssimas, “Riot Women” se destaca como uma adição relevante ao catálogo do BritBox. A série consegue equilibrar temas pesados com humor inteligente, amparada por um elenco que não desperdiça falas. O site 365 Filmes ressalta que, embora algumas coadjuvantes merecessem desenvolvimento maior, a produção entrega seis episódios capazes de emocionar, divertir e provocar reflexão — tudo ao som de guitarras que gritam por visibilidade.
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