“H Is for Hawk” chega aos cinemas em 23 de janeiro de 2026 com a promessa de transformar o celebrado livro-memória de Helen Macdonald em experiência cinematográfica. A produção reúne a diretora Philippa Lowthorpe, a roteirista Emma Donoghue e a atriz Claire Foy, trio de peso que, no papel, parecia garantia de um drama sensível sobre luto e resiliência.
O resultado, no entanto, revela uma obra que tropeça justamente onde o livro voava: na introspecção rica em detalhes. Ao longo de 128 minutos, a trama se esforça para traduzir a relação entre a escritora e a gaivota-goshawk Mabel, mas entrega um filme de ritmo moroso, repleto de repetições e metáforas óbvias.
Adaptação perde força fora das páginas
A base de “H Is for Hawk” é a dolorosa jornada de Helen após a morte do pai, o fotojornalista Alisdair Macdonald. No livro, a autora alterna observações sobre falcoaria, lembranças de infância e reflexões sobre a própria dor, criando um mosaico elegante. No cinema, o roteiro de Emma Donoghue opta por seguir a linha do tempo de forma quase literal, mas deixa de lado o fluxo de consciência que tornava a leitura tão envolvente.
Com poucas soluções visuais para transmitir esse universo interior, a adaptação recorre a longos silêncios e flashbacks estilizados. As idas e vindas no tempo, que deveriam aprofundar o vínculo entre pai e filha, acabam interrompendo o pouco fôlego conquistado nas cenas presentes. O intervalo entre lembrança e realidade ainda sublinha a ausência de desenvolvimento prévio da protagonista, transformando Helen em personagem quase unidimensional: professora de Cambridge em estado de constante tensão.
Elenco se esforça, mas roteiro não ajuda
Claire Foy, conhecida pelo trabalho afinado em “The Crown”, assume o papel da autora com entrega física e emocional. A atriz projeta fragilidade contida: gestos mínimos, olhar fixo no horizonte e voz entrecortada que revela mais do que as palavras. No entanto, a performance esbarra na repetição de cenas em que Helen simplesmente observa ou treina Mabel. Sem diálogo que avance a narrativa, o rosto de Foy precisa sustentar toda a carga dramática — missão árdua mesmo para intérprete experiente.
Brendan Gleeson, como Alisdair, surge em recordações pontuais. A parceria entre pai e filha convence graças à química imediata entre os atores; o humor suave de Gleeson contrasta com a insegurança da protagonista. Porém, o espectador já sabe que ele está morto, e cada aparição carrega melancolia antecipada, mantendo o filme preso à mesma sensação de perda. Denise Gough, no papel da amiga Christina, tenta oferecer contraponto humano à reclusão de Helen, mas seu tempo em cena é curto e servil à metáfora central: quanto mais a falcoaria avança, mais a vida social da personagem recua.
Direção de Philippa Lowthorpe aposta na repetição
No comando, Philippa Lowthorpe prioriza planos abertos de florestas enevoadas e interiores sombrios, sublinhando o isolamento da protagonista. A fotografia fria ajuda a compor a atmosfera, mas a insistência em imagens semelhantes gera monotonia. Em muitos momentos, a sensação é de assistir a uma longa sessão de treinamento de ave, repetida com leves variações de ângulo.
Imagem: Imagem: Divulgação
Quando a câmera se detém em Foy e no falcão, a diretora parece buscar poesia na rotina rígida: alimentação, troca de luvas, voo controlado. Contudo, a falta de ritmo dramático torna cada sequência previsível. A própria Mabel, que no livro simbolizava fúria e liberdade, surge como instrumento narrativo óbvio — um espelho do luto. Ainda que seja fiel aos passos reais da falcoaria, o excesso de detalhamento técnico pesa sobre a experiência de quem espera progressão emocional mais marcada.
Temas de luto e observação ficam diluídos
Um dos pontos altos do texto original é a discussão sobre o ato de observar: Helen aprende com o pai a enxergar o mundo com atenção extrema, mas descobre que a mesma disciplina pode afastá-la da convivência humana. No filme, essa dualidade se perde em diálogos explicativos ou cenas de exposição direta, deixando a mensagem subentendida pela repetição de Helen escondida sob a escrivaninha ou afastada em eventos sociais.
Existe ali, em teoria, um comentário sobre a linha tênue entre contemplação e isolamento. Porém, sem a voz narrativa da autora, o espectador fica restrito a imagens que reforçam o confinamento, quase sem respiro. Não há tempo suficiente dedicado a quem Helen era antes da tragédia, e a jornada de superação cede lugar a um estado prolongado de apatia. O longa termina sem oferecer verdadeiro aprofundamento nessa redescoberta do lugar no mundo.
Vale a pena assistir?
Para quem leu o livro e deseja revisitar a história em outra mídia, “H Is for Hawk” pode despertar curiosidade, sobretudo pela atuação dedicada de Claire Foy e pela presença sempre magnética de Brendan Gleeson. O espectador em busca de um drama introspectivo encontrará belas paisagens, uma trilha discreta e momentos pontuais de sensibilidade. Entretanto, a adaptação carece de dinamismo e falha em traduzir a riqueza literária para a tela, entregando experiência que, apesar da beleza plástica, carece de impulso emocional consistente.
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