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Crítica de Na Lama: por que a 2ª temporada é a fase mais cruel da franquia?

Por Matheus Amorim5 Minutos de leitura
Na lama
Imagem: Divulgação

A liberdade é uma ilusão passageira para quem carrega o peso do passado. A segunda temporada de Na Lama retoma a história de Gladys logo após sua saída da prisão de La Quebrada. A série deixa claro, desde os primeiros minutos, que abrir as grades não significa oferecer um recomeço real. Pelo contrário, a tentativa de reinserção social fracassa rapidamente, empurrando a viúva de Borges de volta ao único ambiente que ela realmente conhece.

E agora, que assistimos aos novos episódios de Na Lama, notamos uma mudança drástica de tom. Criada por Sebastián Ortega, a produção amplia o universo de El Marginal com uma abordagem mais explícita e intensa. Se o primeiro ano tinha um viés social focado em corrupção, esta nova fase mergulha de cabeça nas disputas de poder sanguinárias e nas relações perigosas entre as detentas.

Na Lama: o gosto amargo da liberdade e o retorno ao inferno

A trama de Na Lama acompanha a vida de Gladys Guerra, interpretada com maestria por Ana Garibaldi. O mundo exterior não foi gentil com ela em nenhum aspecto. Trabalhando como repositora em um supermercado e ganhando uma miséria absoluta, ela luta diariamente para tentar sustentar o neto, Juan Pablo. O desespero financeiro a empurra para uma decisão trágica.

Pressionada pela falta de dinheiro, Gladys aceita um último trabalho arriscado para transportar drogas. Como é de costume nesse universo criminal, a traição está sempre na esquina mais próxima esperando o momento certo. Um informante a entrega para as autoridades, e o resultado é imediato: ela é enviada de volta para o inferno de La Quebrada sem direito de defesa.

Para piorar a situação dramática, Aquino sequestra o pequeno Juan Pablo como retaliação direta pela carga perdida na apreensão da polícia. Agora, Gladys precisa sobreviver em um ambiente hostil enquanto tenta arquitetar um plano para recuperar o neto. O problema é que a cadeia que ela encontra não é a mesma que deixou meses atrás.

A ditadura da Gringa Casares e as viúvas negras

A estrutura de poder dentro do presídio virou completamente de cabeça para baixo. A antiga líder absoluta, La Zurda, perdeu o posto de comando e todos os seus privilégios valiosos de internet. Quem assumiu o trono de ferro foi a aterrorizante Gringa Casares, que impõe uma liderança baseada no medo constante e na humilhação de suas rivais de pátio.

Sob o nariz complacente da nova diretora, Beatriz Lanteri, a Gringa comanda um esquema criminoso ousado chamado de viúvas negras. Detentas selecionadas saem da prisão durante a noite com um objetivo claro e rentável. Elas precisam seduzir e roubar turistas desavisados em hotéis de luxo da cidade, dividindo os lucros com a liderança corrupta do pavilhão.

É exatamente nesse ninho de cobras venenosas que Gladys precisa encontrar o seu espaço para continuar respirando. A dinâmica mudou brutalmente, e as alianças do passado já não valem mais nada na nova gestão. O roteiro constrói uma atmosfera de paranoia constante, onde qualquer passo em falso ou palavra mal dita pode resultar em punições severas no meio da madrugada.

Verónica Llinás engole a tela com atuação impressionante

Se há um consenso absoluto sobre esta temporada de Na Lama, é o impacto destrutivo de Verónica Llinás. Ela entra em cena como a Gringa Casares e basicamente domina a tela em cada aparição que faz. Sua performance como a nova dona do pedaço é impulsiva, agressiva e assustadoramente controladora, não deixando espaço para ninguém brilhar ao seu redor.

A atuação dela evoca memórias fortes de Alejandro Urdapilleta na clássica Tumberos. Ela traz uma fala descontrolada e tiques nervosos que tornam a vilã fascinante e repugnante na mesma proporção exata. A Gringa não é apenas uma chefe comum de pavilhão esperando o tempo passar. Ela é uma força da natureza implacável que submeteu até as lendas antigas do presídio.

O embate silencioso entre Gringa e Gladys sustenta os melhores momentos dramáticos de toda a produção. Garibaldi entrega uma protagonista exausta e machucada, mas que ainda possui instinto tático de sobrevivência. Esse contraste prático entre a agressividade de uma e a resiliência fria da outra dita o ritmo dos episódios centrais da trama de Ortega.

 

Personagens de Na Lama, em capa da série.
Imagem: Divulgação

Veredito: A brutalidade justifica a nova direção?

A segunda temporada de Na Lama é uma criatura muito diferente de sua antecessora direta. O texto é mais sujo, perverso e decididamente menos sentimental do que vimos antes. A série perde alguns pontos valiosos ao enfraquecer os laços de amizade e solidariedade que definiam o coração emocional do primeiro ano, optando por focar em puro choque visual e cenas eróticas.

No entanto, a produção compensa essa perda de profundidade com atuações memoráveis do seu elenco feminino principal. A dinâmica de poder estabelecida pela direção, mesmo que soe um tanto exagerada em alguns momentos, nunca permite que o público fique entediado. O perigo é palpável a todo instante e a sensação de claustrofobia domina cada transição de cena.

Para quem busca um drama prisional cru e sem concessões morais fáceis, a nova fase entrega exatamente o que o formato exige. É um lembrete duro de que, no mundo do crime organizado, a verdadeira prisão não é feita apenas de grades e concreto armado. Ela é construída pela impossibilidade absoluta de escapar das próprias escolhas destrutivas do passado.

Matheus Amorim

Sou Matheus Amorim Paixão, redator, crítico e fundador do 365Filmes. Com trajetória consolidada no mercado digital desde 2021, especializei-me em crítica cinematográfica e análise de tendências no streaming. Minha autoridade foi construída através de passagens por portais de referência como Cultura Genial, TechShake e MasterDica, onde desenvolvi um rigor técnico voltado à curadoria estratégica e experiência do espectador. No 365 Filmes, meu compromisso é entregar análises fundamentadas e honestidade intelectual, conectando audiências às melhores narrativas da sétima arte.

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