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Crítica: A Acusada (2026) escorrega no ritmo, mas esconde o final mais indigesto da Netflix Brasil

Por Matheus Amorim4 Minutos de leitura
A Acusada estreou na Netflix Brasil
Imagem: Divulgação

Para nós, no portal 365Filmes, filmes que prometem um suspense investigativo e entregam um denso estudo de personagem sempre correm um risco enorme. Disponível no catálogo da Netflix Brasil, o thriller psicológico indiano A Acusada (2026) brinca perigosamente com as expectativas do público. A obra comandada por Anubhuti Kashyap usa a premissa do cancelamento virtual para debater o preço real do poder feminino.

A trama acompanha a cirurgiã Geetika Sen, uma profissional brilhante e temida em Londres que está prestes a assumir a sonhada reitoria do hospital. Tudo desmorona quando e-mails anônimos a acusam publicamente de assédio sexual. Como costumamos avaliar em nossa seção de críticas, a construção da paranoia é excelente, mas o ritmo arrastado do segundo ato testa a paciência até do espectador mais focado.

Konkona Sen Sharma e a armadura do machismo estrutural de A Acusada

O absoluto pilar de sustentação de A Acusada é a atuação de Konkona Sen Sharma. A atriz, já aclamada por sua intensidade em Lipstick Under My Burkha, entrega uma protagonista queer incrivelmente complexa e detestável em muitos níveis. Geetika não é uma vítima perfeita; ela é arrogante, fria e construiu uma muralha de crueldade para não ser engolida viva pelo machismo hospitalar.

O roteiro acerta em cheio ao expor a hipocrisia das instituições corporativas modernas durante a investigação da médica. O filme joga na nossa cara que o julgamento social é absurdamente mais veloz e implacável quando o alvo é uma mulher ambiciosa. Enquanto homens com a mesma postura de Geetika são aplaudidos como líderes de pulso firme, ela é imediatamente crucificada como uma tirana descontrolada.

Contudo, a direção peca ao não dar dinamismo a esse debate ético e moral na tela. Muitas sequências de diálogos nos corredores do hospital soam repetitivas e travam o andamento do mistério central. O suspense sobre “quem enviou os e-mails” acaba perdendo a força de atração, ofuscado pela lentidão com que a cineasta escolhe mover as peças do seu tabuleiro britânico.

A conspiração corporativa e as fraturas no casamento

Do outro lado do balcão dramático, temos a crise conjugal que ameaça o processo de adoção da protagonista. A esposa Meera, interpretada pela talentosa Pratibha Ranta (de Laapataa Ladies), traz a vulnerabilidade exata para contrastar com a frieza de Geetika. A suspeita de traição com a ex-namorada Sophie adiciona uma pimenta passional, forçando Meera a contratar um detetive particular.

A grande reviravolta afasta o folhetim barato para abraçar a pura sabotagem corporativa e criminosa. O envolvimento do primo hacker de Sophie revela que o autor das mensagens venenosas é o Dr. Logan, o rival direto pela reitoria.

A revelação do vilão é um pouco óbvia para quem consome o gênero com frequência, mas cumpre o papel de desmascarar a inveja do sistema patriarcal contra o sucesso feminino.

O anticlímax genial e a recusa indigesta da reitoria

O que realmente eleva a nota de A Acusada é a coragem absurda do seu encerramento. Quando o nome de Geetika é totalmente limpo das falsas acusações criminais, o roteiro não entrega uma redenção triunfal e mastigada. Em um monólogo pesado, a cirurgiã surpreende a todos ao recusar o cargo de poder máximo que ela buscou durante toda a sua carreira acadêmica.

Ela reconhece diante do conselho que, embora seja inocente das acusações formais de assédio, é completamente culpada de abusos morais contínuos. A médica admite que a sua busca cega por validação a transformou em uma engrenagem tóxica e impiedosa. A lembrança da demissão covarde da Dra. Carol prova que a protagonista se corrompeu brutalmente para chegar ao topo da pirâmide.

A Acusada estreou na Netflix Brasil
Imagem: Divulgação

Vemos aqui uma pílula amarga que vale a reflexão

O longa indiano foge do maniqueísmo fácil de Hollywood para entregar um soco no estômago do espectador na reta final. Geetika pedir perdão à esposa pela sua arrogância contínua, e não pela falsa traição, mostra uma maturidade narrativa rara no streaming atual. É a aceitação de que o ego inflado destruiu as bases do respeito dentro da própria casa.

Apesar da barriga narrativa no meio da projeção e da falta de um ritmo mais ágil na investigação, a obra se sustenta com muita dignidade. É um filme desconfortável e necessário sobre as contradições do poder no mundo corporativo pós-#MeToo.

Ele não entrega as respostas fáceis que a audiência adora consumir, mas garante que o debate sobreviva por muito tempo após os créditos.

Matheus Amorim

Sou Matheus Amorim Paixão, redator, crítico e fundador do 365Filmes. Com trajetória consolidada no mercado digital desde 2021, especializei-me em crítica cinematográfica e análise de tendências no streaming. Minha autoridade foi construída através de passagens por portais de referência como Cultura Genial, TechShake e MasterDica, onde desenvolvi um rigor técnico voltado à curadoria estratégica e experiência do espectador. No 365 Filmes, meu compromisso é entregar análises fundamentadas e honestidade intelectual, conectando audiências às melhores narrativas da sétima arte.

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