“Hamnet”, novo longa de Chloé Zhao, chegou aos cinemas trazendo não só a dor de uma família diante da morte, mas também referências inesperadas à mitologia grega. A diretora confirmou que o casamento entre William Shakespeare e Agnes Hathaway — personagem adaptada do nome Anne — foi filmado para lembrar a tragédia de Orfeu e Eurídice. Essa escolha adiciona um clima de presságio que atravessa toda a narrativa.
O drama histórico, coproduzido e coescrito por Zhao ao lado da autora Maggie O’Farrell, gira em torno do luto pelo filho Hamnet, morto aos 11 anos, e de como essa perda afeta o casal. Depois de uma estreia elogiada no Festival de Telluride 2025, o filme ganhou fôlego de favorito em diversas categorias do Oscar, incluindo Melhor Filme, Direção e Atriz para Jessie Buckley.
Os bastidores do clima de “mau agouro”
Durante conversa com jornalistas sobre o filme Hamnet, Zhao explicou que o objetivo era evitar uma cena de casamento “excessivamente feliz”. “Queríamos que o público percebesse algo inquietante”, disse. A inspiração veio diretamente do mito de Orfeu, que perde Eurídice após olhar para trás no submundo. No longa, um simples pedido de “olhe para mim” carrega a mesma tensão trágica.
Paul Mescal, que vive Shakespeare, compartilhou que sentiu essa atmosfera já no set. “Havia uma energia diferente, como se a alegria estivesse prestes a ser roubada”, contou o ator. A protagonista Agnes, interpretada por Jessie Buckley, reforça essa sensação de destino inevitável e ecoa a perda que virá com a morte do menino Hamnet.
Paralelo mitológico e intenção narrativa
Para Zhao, a associação à mitologia grega serve de espelho temático: o destino de Orfeu ilustra o poder de um deslize. Da mesma forma, Shakespeare carrega o peso de ter “olhado para trás” ao transformar dor em arte, algo visível na peça “Hamlet”, destaque iminente em sua carreira dentro do filme.
O início inusitado do romance entre Agnes e Will
Outro detalhe comentado foi o aperto de mãos com a mão esquerda, que marca o primeiro encontro do casal. Buckley revelou que o gesto não nasceu de simbolismos profundos: “Foi a escolha mais prática para a câmera naquele lado”, esclareceu, rindo. Mesmo assim, a curiosidade se transformou em camada interpretativa para o público, reforçando a espontaneidade do relacionamento.
Mescal acredita que momentos como esse permitem que espectadores projetem interpretações pessoais. “Quando algo não é explicitamente explicado, abre-se espaço para o público inserir seus próprios significados”, disse, reforçando a riqueza do filme Hamnet em nuance.
Bloco estático e “lente CCTV”
Zhao também detalhou a decisão de usar muitos planos fixos, inspirados, segundo ela, em abordagens “CCTV” vistas em “The Zone of Interest”. A ideia era observar os personagens à distância, quase como voyeurs, ampliando a sensação de impotência diante dos eventos que se desenrolam.
Colaboração com Łukasz Żal e decisões instintivas
A diretora destacou a parceria com o premiado diretor de fotografia Łukasz Żal. Juntos, eles buscavam um equilíbrio entre distância analítica e proximidade emocional. “Fico ao lado da câmera e sinto a energia do elenco. Se percebo que algo está deslocado, ajusto na hora”, afirmou.
Imagem: Imagem: Divulgação
O método reforça o caráter intimista do filme Hamnet, valorizando expressões sutis de Buckley, Mescal e do jovem Jacobi Jupe, que dá vida ao menino-título. Cada posicionamento em cena foi pensado para refletir a tensão entre a simplicidade do cotidiano e o peso da tragédia iminente.
Reconhecimento em festivais e corrida ao Oscar
Desde a exibição em Telluride, as críticas têm sido entusiasmadas. Publicações especializadas elogiam, sobretudo, a performance de Jessie Buckley, considerada uma das favoritas na disputa por Melhor Atriz. O longa de 126 minutos também figura entre os mais cotados para Melhor Filme e Direção, repetindo o sucesso de Zhao em “Nomadland”.
A produção reúne nomes de peso na equipe, incluindo os produtores Liza Marshall, Pippa Harris, Sam Mendes e Steven Spielberg. Além disso, a presença de Maggie O’Farrell como corroteirista garante fidelidade à essência do romance homônimo, base do projeto.
Dados técnicos
Classificado como PG-13, o filme Hamnet estreou em circuito comercial em 26 de novembro de 2025, logo após uma bem-sucedida campanha de festivais. Com 126 minutos de duração, o drama combina romance e reflexão histórica, oferecendo uma releitura da vida de Shakespeare para novos públicos.
Por que Hamnet desperta tanta atenção?
Além da força do elenco e da direção premiada, a trama mexe com a curiosidade ao explorar uma faceta menos conhecida de Shakespeare: o homem por trás do autor. O luto pelo filho, pouco registrado nos anais históricos, ganha destaque e vira motor dramático. Ao mesmo tempo, a ligação com a tragédia de Orfeu e Eurídice confere camadas universais sobre amor, perda e criação artística.
Para leitores e espectadores do site 365 Filmes, a proposta serve de porta de entrada a uma história que ressoa há séculos, mas é contada com linguagem moderna e sensibilidade contemporânea. A combinação de relevância cultural, estética refinada e emoções intensas faz de “Hamnet” um dos títulos mais comentados da temporada.
O futuro do longa
Com a temporada de premiações se aproximando, analistas apontam que o filme Hamnet pode repetir o feito de “Shakespeare Apaixonado” e levar estatuetas importantes. Ainda assim, Zhao mantém o foco na recepção do público. “Se as pessoas deixarem a sala discutindo o peso do amor e da perda, já teremos cumprido nosso papel”, concluiu a cineasta.
