“A Useful Ghost” chega como uma das surpresas mais excêntricas do cinema asiático recente. A produção tailandesa, dirigida e roteirizada por Ratchapoom Boonbunchachoke, combina comédia, drama e fantasia para esmiuçar os efeitos do capitalismo tardio em uma cidade sufocada por poeira.
Mais que uma simples sátira, o longa propõe uma experiência visual de cores vibrantes, aspiradores de pó habitados por espíritos e personagens que transitam entre o lirismo e a crítica social. A seguir, destrinchamos as atuações, o trabalho de direção e os principais elementos estéticos que fazem de “A Useful Ghost” um título que merece atenção.
Elenco abraça o absurdo e entrega emoção genuína
A espinha dorsal de “A Useful Ghost” está nas interpretações de Davika Hoorne e Witsarut Himmarat. Hoorne vive Nat, nora do poderoso grupo fabricante de aspiradores que, após sucumbir à poluição, assume a forma de um eletrodoméstico vermelho reluzente. Mesmo limitada a aparições que só o marido enlutado consegue enxergar, a atriz transmite afeto, frustração e humor físico com nuances que tornam crível a paixão pós-vida do casal.
Himmarat interpreta March, homem afogado em luto que tenta manter relações – algumas hilárias, outras melancólicas – com o objeto possuído. O equilíbrio entre o cômico e o trágico só funciona graças à entrega do ator, que oscila entre gestos afetivos e explosões de desespero quando precisa justificar aos demais por que insiste em “namorar” um aspirador.
No núcleo de apoio, Apasiri Nitibhon, como a empresária Suman, sintetiza a ambiguidade moral do enredo. Ao mesmo tempo que lamenta a perda da nora, ela não hesita em transformar o fenômeno sobrenatural em oportunidade de negócio. Já Wanlop Rungkumjad surge como Krong, técnico de manutenção que serve de guia folclórico, acrescentando camadas de humor deadpan à narrativa.
Direção equilibra surrealismo e comentário social
Estreando no comando de um longa-metragem, Boonbunchachoke imprime identidade própria ao misturar influências que vão de Wes Anderson ao compatriota Apichatpong Weerasethakul. O realizador usa enquadramentos simétricos, paleta de cores saturada e movimentos de câmera calculados para criar um universo onde o insólito parece rotineiro.
A mesma mise-en-scène serve para reforçar o subtexto anticapitalista. Prédios antigos são demolidos, frescos esculpidos à mão viram entulho, enquanto políticos alegam que “não há progresso sem poeira”. Ao inserir fantasmas em meio a regulamentações bancárias e seguros de vida, o diretor ironiza a sociedade que mercantiliza até o luto.
Em 130 minutos, o filme abraça múltiplos temas – memória coletiva, desconstrução de tradições, LGBTfobia – e corre o risco de parecer sobrecarregado. Contudo, essa profusão de ideias reflete justamente o caos de um mundo que, segundo o roteiro, insiste em conectar todas as esferas da existência a uma transação financeira.
Roteiro costura humor, romance e melancolia com simbolismo
Assinado também por Boonbunchachoke, o texto de “A Useful Ghost” alterna diálogos diretos com passagens quase poéticas. Uma das piadas recorrentes envolve March debatendo com parentes sobre a impossibilidade de “assinar documentos” ou “pagar boletos” usando um aspirador como esposa, destaque cômico que evidencia o absurdo burocrático.
Imagem: Imagem: Divulgação
Em paralelo, existe uma camada dramática que questiona se apegar-se ao passado impede o progresso pessoal. A alma de Nat deseja conforto para o marido, mas sua permanência bloqueia novas possibilidades de afeto. O subtexto se amplia ao mostrar pais que só toleram o filho gay quando percebem ganhos comerciais na conexão internacional do genro australiano.
Nesse mosaico, cada situação burlesca traz um eco doloroso sobre como relações humanas acabam submetidas à lógica de mercado. Mesmo quando a piada envolve sexo com eletrodomésticos, a graça nunca eclipsa o desconforto de perceber que, para muitos, até o amor vira ativo negociável.
Fotografia e design de produção hipnotizam o público
Visualmente, “A Useful Ghost” dialoga com o início da carreira de Pedro Almodóvar: tons de azul-turquesa, vermelho-escarlate e amarelo-canário explodem na tela. Essa explosão cromática suaviza o peso dos temas, mas também provoca reflexão sobre a sedução do “novo brilhante” em detrimento de memórias tangíveis.
Os cenários alternam apartamentos minimalistas com fábricas cheias de engrenagens, sugerindo um contraste entre individualidade e produção em massa. Detalhes como a mangueira branca do aspirador – evocando um cordão umbilical – reforçam a ideia de laços inquebráveis, mesmo após a morte.
Na trilha sonora, leves toques de percussão sintetizam ruídos industriais, enquanto melodias etéreas acompanham aparições fantasmagóricas. O resultado é um clima de sonho lúcido que mantém o espectador alerta, sem nunca abandonar a sensação de que algo íntimo está sendo explorado em cena.
Vale a pena assistir?
Para quem busca uma experiência fora do convencional, “A Useful Ghost” é obrigatória. A mistura singular de sátira social, romance pós-mortem e estética vibrante coloca o filme entre as obras mais originais do circuito recente. Entre empurrões de crítica aos excessos do mercado e momentos de puro deleite visual, a produção tailandesa oferece discussão pertinente sobre vínculo, consumo e memória. Se você acompanha o 365 Filmes em busca de narrativas que desafiam rótulos, reserve duas horas para mergulhar nesse universo de poeira, saudade e humor sombrio.
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