Quando se discute as maiores obras de artes marciais do século XXI, títulos como “O Tigre e o Dragão” e “A Casa dos Punhais Voadores” surgem rapidamente. O que poucos lembram é que grande parte da estética, da narrativa e do protagonismo feminino presentes nessas produções brotam de um filme chinês lançado em duas partes entre 1970 e 1971: “A Touch of Zen”.
Com duração total de 180 minutos, o épico de King Hu transformou o wuxia – subgênero centrado em guerreiros virtuosos e coreografias de espada – em referência internacional. Cinquenta anos depois, segue aclamado pela crítica, ostentando 97 % de aprovação no Rotten Tomatoes e status de culto entre cineastas que trabalham com artes marciais no cinema.
O enredo: romance, filosofia e espadas em igual medida
King Hu adapta um conto de Pu Songling para narrar a jornada de Gu Shengzhai, um erudito pacífico que cruza o caminho de Yang Hui-ching, espadachim fugitiva de uma conspiração imperial. A construção lenta, quase contemplativa, dedica boa parte da primeira hora a diálogos sobre honra, destino e a corrupção dentro da corte, preparando o terreno para embates que privilegiam tensão dramática, não apenas a coreografia.
A segunda metade eleva o ritmo: são confrontos em bambuzais, investidas contra um exército liderado por um eunuco tirano e, sobretudo, o célebre clímax no mosteiro. Esse equilíbrio entre introspecção e violência poética influenciou diretamente a cadência vista décadas mais tarde em “Herói”, de Zhang Yimou, e no próprio “O Tigre e o Dragão”, obra que popularizou o gênero no Ocidente.
Interpretações que sustentam três horas de narrativa
A performance do trio principal é o motor emocional do filme. Shih Chun empresta delicadeza ao estudioso, evitando o estereótipo de herói repentino: sua transformação em estrategista surge gradualmente, num arco que convence. Já Hsu Feng, então com pouco mais de 20 anos, confere à heroína força física e rigidez moral, mas também uma vulnerabilidade que rompe a dureza do personagem.
Esse trabalho de nuances torna crível o romance entre os dois, ponto essencial para envolver o público durante o longo tempo de projeção. Ku Shen Chai, por sua vez, encarna o monge guerreiro com um magnetismo silencioso, roubando a cena sempre que entra em combate. Em conjunto, o elenco constrói uma dinâmica que sustenta cada um dos 180 minutos sem cansar.
A direção de King Hu e o roteiro que quebrou paradigmas
King Hu já era respeitado por “Come Drink with Me” e “Dragon Inn”. Em “A Touch of Zen”, entretanto, ele aperfeiçoa a fusão entre ação estilizada e meditação espiritual. As célebres tomadas amplas de paisagem, intercaladas com cortes rápidos durante o duelo, foram referência direta para Ang Lee e Zhang Yimou ao coreografarem conflitos em folhagens flutuantes.
O roteiro – assinado pelo próprio diretor ao lado de Pu Songling – traz ainda um viés feminista incomum aos anos 1970. A liderança de Yang Hui-ching, que conduz a trama e assume decisões estratégicas, abriu caminho para protagonistas como Jen Yu em “O Tigre e o Dragão”. No universo pop recente, essa abordagem conversa, por exemplo, com o esforço de super-heroínas da Marvel em ocupar espaço central, tema analisado em artigos sobre dinâmicas de poder nos Vingadores.
Imagem: Imagem: Divulgação
Influência direta em sucessos do século XXI
A cena do bambuzal em “A Touch of Zen” tornou-se matriz visual copiada e remixada por sucessores. Em “O Tigre e o Dragão”, Li Mu Bai e Jen Yu pulam entre galhos quase como sombras, repetindo o uso do cenário como extensão da luta. “A Casa dos Punhais Voadores” amplia o conceito com folhas coloridas cortadas pelo vento, mas a coreografia original de King Hu permanece evidente.
Além do estilo de combate, o longa consolidou a ideia de protagonismo feminino firme, inspirando roteiros que colocam personagens complexas no centro de narrativas de ação. Esse legado aparece não só em wuxia, mas em thrillers contemporâneos como o elogiado “Crime 101”, que também aposta em liderança feminina para conduzir tensão e ritmo.
Vale a pena assistir hoje?
Para quem acompanha as novidades do 365 Filmes e procura entender as raízes dos grandes sucessos de artes marciais, “A Touch of Zen” segue essencial. Mesmo com três horas de duração, a narrativa prende graças ao carisma do elenco e ao cuidado visual atemporal. A restauração em alta definição, disponível em mostras e plataformas especializadas, ressalta cores e movimentos que influenciaram todo um estilo de filmar ação.
Se o objetivo é traçar paralelos entre a produção asiática clássica e blockbusters modernos, poucas obras oferecem tão rico material de comparação. Do uso de cabos nos saltos quase sobrenaturais até o subtexto sobre corrupção estatal, cada escolha de King Hu reverbera em filmes posteriores.
Assistir a “A Touch of Zen” é, portanto, mergulhar na origem de técnicas que continuam a moldar o cinema de combate, seja em epopeias de espada ou em aventuras espaciais que desafiam Mario e Luigi contra novos vilões, tema já explorado em análise sobre franquias de fantasia. O épico chinês permanece indispensável para qualquer cinéfilo que busca compreender por que, meio século depois, o wuxia ainda encanta plateias ao redor do mundo.
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