Estreou nesta sexta-feira (31) no Prime Video a série Tremembé, produção brasileira que já nasce cercada de polêmica. Baseada em livros do jornalista Ulisses Campbell, a trama mergulha na rotina da penitenciária feminina de Tremembé, em São Paulo, conhecida por receber detentas que ganharam notoriedade no noticiário policial.
Marina Ruy Barbosa interpreta Suzane von Richthofen, condenada em 2002 pelo assassinato dos pais, enquanto nomes como Elize Matsunaga e Anna Jatobá também inspiram personagens. Apesar de manter fidelidade aos fatos, o roteiro assume liberdade dramática para explorar o pós-crime, assunto raramente tratado com tanta profundidade no audiovisual brasileiro.
Tremembé aposta no pós-crime para renovar o gênero true crime
A produção foge da reconstituição detalhada dos homicídios e passa a lente para o que acontece depois do julgamento. Ou seja, o foco está na sobrevivência dentro de um presídio de segurança máxima, nas disputas de poder e na hierarquia informal que dita as regras entre as internas.
Ulisses Campbell, autor de Suzane: Assassina e Manipuladora e de Elize Matsunaga: A Mulher que Esquartejou o Marido, assina o roteiro ao lado da diretora Vera Egito. A dupla garante que Tremembé não tem interesse em glamourizar crimes nem em transformar criminosas em anti-heroínas admiradas; a proposta é escancarar a crueza do sistema prisional feminino.
Como Suzane von Richthofen aparece na série
Em cena, Marina Ruy Barbosa constrói uma Suzane fria, estrategista e capaz de agir com aparente vulnerabilidade quando lhe convém. A atriz contou que precisou eliminar julgamentos pessoais para alcançar a frieza típica da personagem. “Calcular cada olhar, cada palavra” virou mantra nos bastidores.
Na história, Suzane tenta manipular situações para manter privilégios mínimos, como acesso a produtos de higiene ou posição na fila do telefone. O retrato reflete a imagem pública que a detenta cultivou desde o início da pena, marcada por entrevistas pontuais e pela fama de articuladora dentro do presídio.
Frieza calculada
Ao reproduzir esse comportamento, Tremembé reforça que a protagonista não busca redenção. Ao contrário: o roteiro mostra que, para sobreviver entre ladrões de celular e assassinas de reputação nacional, ela aposta na habilidade de ler pessoas e antecipar movimentos.
Humor ácido e tensão como tempero narrativo
Apesar do tema pesado, a série injeta humor ácido para ilustrar a convivência forçada entre internas de origens muito diferentes. Piadas rápidas, comentários irônicos sobre a fama de algumas presas e situações absurdas do cotidiano carcerário criam contraste com momentos de tensão extrema, como revistas surpresas e punições coletivas.
Esse equilíbrio, segundo a equipe criativa, busca aproximar o espectador de uma realidade que mistura tragédia e banalidade. Afinal, entre contagens de cela e procedimentos burocráticos, também há espaço para fofoca, solidariedade e rixas alimentadas por pequenas vantagens.
Ficção e realidade: onde a linha é traçada
Tremembé utiliza dados verídicos para situar personagens e crimes, mas inventa diálogos, alianças e conflitos específicos a fim de construir uma narrativa envolvente. As presas famosas realmente cumpriram pena na unidade paulista, porém vários eventos mostrados em tela são composições dramáticas.
Essa licença poética permite que a série aborde temas sensíveis, como corrupção de agentes, comércio ilegal de produtos e relações afetivas entre detentas, sem expor fatos sigilosos ou infringir processos ainda em curso. Para o público do 365 Filmes, é uma oportunidade de ver o sistema penal de um ângulo pouco explorado, sem cair em romantizações.

Imagem: Prime Video.
Consultoria de ex-detentas
Para legitimar ambientação e diálogos, a produção entrevistou mulheres que passaram por Tremembé. Elas detalharam regras não escritas, apelidos de alas, horários do banho de sol e até as gírias usadas no pátio. Essa pesquisa de campo ajudou a equipe de arte a reproduzir celas superlotadas, uniformes surrados e o clima de vigilância constante.
Bastidores: Marina Ruy Barbosa assume risco de protagonizar Suzane
Ao dar vida a uma personagem tão rejeitada pela opinião pública, Marina sabia que enfrentaria críticas. A atriz, que também atua como produtora associada, diz ter encarado o desafio como parte de um movimento para expandir seu repertório. “É um trabalho que exige precisão e distanciamento emocional”, explica.
A preparação envolveu contato com psicólogos, leitura de processos e análise de entrevistas antigas de Suzane. O elenco ainda passou por um laboratório dentro de um presídio desativado, onde recebeu instruções de ex-agentes penitenciários sobre procedimentos de revista, postura corporal e códigos internos.
Direção de Vera Egito imprime ritmo dinâmico
Conhecida pelo filme Amores Urbanos, Vera Egito adota uma câmera inquieta, que passeia pelos corredores estreitos da unidade e acompanha as detentas em planos fechados, quase claustrofóbicos. A fotografia aposta em tons frios, iluminados por luzes fluorescentes que reforçam a sensação de isolamento.
A trilha sonora combina batidas eletrônicas sutis com ruídos diegéticos — portas de cela, passos de sapato, apitos de guarda — ampliando o estado de alerta permanente. O resultado é uma experiência imersiva que prende o espectador, algo essencial para quem quer se destacar no catálogo cada vez mais competitivo do streaming.
Por que Tremembé deve entrar no seu radar
Para fãs de true crime, a série oferece um olhar pouco habitual: em vez de se fixar no ato violento, investiga as consequências duradouras do crime para todos os envolvidos. Quem acompanha novelas e doramas pode se surpreender com a ousadia de usar humor e tensão na mesma medida, criando um produto híbrido e, ao mesmo tempo, bastante brasileiro.
Com oito episódios na primeira temporada, Tremembé representa uma aposta do Prime Video em narrativas locais de alto impacto. Se a recepção for positiva, a plataforma pode pavimentar caminho para outras produções que discutam justiça, violência e sistema carcerário sem filtros.
No fim das contas, Tremembé não busca absolver nem condenar novamente suas personagens, mas sim mostrar como o cárcere cria uma sociedade paralela, onde regras formais e informais se sobrepõem. É nessa zona cinzenta que Suzane von Richthofen, Elize Matsunaga e outras mulheres tentam reescrever suas histórias — ou manipular a narrativa a seu favor.
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