Entre os filmes que chegaram recentemente ao catálogo do Prime Video e rapidamente encontraram espaço entre os títulos mais assistidos da plataforma, Eddington se destaca por um motivo simples: não há nada exatamente parecido com ele. O novo trabalho de Ari Aster utiliza a estrutura de um western contemporâneo para mergulhar em temas que marcaram os últimos anos, como polarização política, desinformação e radicalização social.
Ambientado em maio de 2020, durante os meses mais tensos da pandemia de Covid-19, o longa acompanha o conflito entre um xerife e um prefeito em uma pequena cidade do Novo México. O que começa como uma disputa local rapidamente se transforma em um retrato do colapso das relações humanas em uma sociedade dominada pelo medo, pela desconfiança e pelo ressentimento.
Ari Aster aposta alto mais uma vez
Desde que chamou atenção com Hereditário e consolidou seu nome com Midsommar, Ari Aster se tornou um dos diretores mais interessantes de sua geração. Em Eddington, ele demonstra novamente sua disposição para correr riscos, recusando caminhos fáceis e investindo em uma narrativa que desafia constantemente o espectador.
O filme mistura elementos de comédia ácida, suspense psicológico, drama social e faroeste moderno. Essa combinação resulta em uma experiência singular, capaz de provocar fascínio em determinados momentos e frustração em outros.
Aster parece interessado menos em contar uma história convencional e mais em capturar o estado emocional de uma época específica. O diretor transforma a pequena cidade de Eddington em uma espécie de microcosmo dos Estados Unidos durante a pandemia, onde qualquer desacordo pode se transformar em uma guerra ideológica.
Essa abordagem produz cenas extremamente envolventes, especialmente durante o primeiro ato, quando a tensão cresce de forma gradual e quase imperceptível.
Se existe um elemento que mantém o filme sempre interessante, mesmo nos momentos em que sua narrativa perde força, esse elemento é Joaquin Phoenix.
Interpretando o xerife Joe Cross, o ator entrega uma atuação marcada por nuances e contradições. Em um primeiro momento, seu personagem parece representar uma figura racional diante de decisões questionáveis da administração local. No entanto, à medida que a trama avança, o público começa a enxergar aspectos muito mais complexos e inquietantes por trás de suas ações.
Phoenix conduz essa transformação com enorme precisão. O ator consegue fazer com que o espectador oscile constantemente entre compreensão, desconfiança e rejeição ao personagem.
O trabalho do elenco, porém, acaba criando uma pequena contradição dentro do filme. Embora Pedro Pascal esteja sólido como o prefeito Ted Garcia e Emma Stone cumpra bem seu papel como Louise Cross, ambos acabam recebendo menos espaço do que suas presenças sugeriam inicialmente.
O mesmo vale para Austin Butler, cujo personagem surge como uma peça importante, mas sem desenvolvimento proporcional ao potencial apresentado. No fim, Eddington se torna quase inteiramente o filme de Joaquin Phoenix.
Quando a crítica social perde parte da força
O principal problema da produção está justamente em suas ambições.
Ari Aster tenta abordar uma enorme quantidade de assuntos ao mesmo tempo. O filme fala sobre pandemia, política, cultura digital, teorias conspiratórias, radicalização ideológica, relações comunitárias e manipulação social. O resultado é um roteiro repleto de ideias, mas nem sempre disposto a aprofundá-las.
Em alguns momentos, a construção do xerife Joe Cross também sofre com certa falta de sutileza. As características e posicionamentos do personagem ficam evidentes muito rapidamente, diminuindo parte da força que suas revelações poderiam ter.
Esse aspecto se torna ainda mais perceptível porque muitos dos comportamentos criticados pelo filme já foram amplamente discutidos nos últimos anos. Em vez de apresentar novas perspectivas sobre esses fenômenos, Eddington frequentemente reforça percepções que já fazem parte do debate público.
A consequência é que algumas das críticas propostas pelo roteiro perdem impacto emocional antes mesmo de atingirem seu objetivo. Mesmo quando o roteiro tropeça, Ari Aster encontra maneiras de manter o interesse do público através da linguagem cinematográfica.
O diretor demonstra controle absoluto da câmera e utiliza os enquadramentos como ferramenta narrativa. Não se trata apenas de criar imagens bonitas, mas de usar a composição visual para revelar informações sobre os personagens e aumentar a tensão das cenas.
A progressão dramática construída ao redor de Joe Cross é um dos melhores exemplos disso. Aster conduz cuidadosamente o olhar do espectador, permitindo que novas camadas do personagem sejam reveladas de forma gradual. O resultado é uma experiência visualmente rica, que reforça o desconforto crescente presente na narrativa.
O último ato também merece destaque. Depois de um desenvolvimento marcado por altos e baixos, o filme encontra novamente seu equilíbrio e entrega momentos intensos que justificam boa parte da jornada.

Vale a pena assistir Eddington?
Para quem aprecia produções convencionais e narrativas mais objetivas, Eddington pode parecer excessivamente longo em seus 145 minutos de duração. Há momentos em que o filme claramente se beneficia menos da profundidade e mais do acúmulo de ideias.
Por outro lado, espectadores interessados em propostas mais autorais encontrarão aqui um trabalho que se recusa a seguir fórmulas. Mesmo irregular, o longa demonstra coragem criativa e reafirma Ari Aster como um cineasta disposto a explorar territórios pouco confortáveis.
Eddington talvez não alcance o mesmo nível de impacto de alguns dos trabalhos anteriores do diretor, mas ainda assim oferece uma reflexão pertinente sobre os mecanismos que transformam divergências cotidianas em conflitos coletivos.
Em tempos de polarização constante, a pequena cidade retratada por Ari Aster acaba funcionando como um espelho inquietante de comportamentos que continuam presentes não apenas nos Estados Unidos, mas em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil.
O resultado é um filme imperfeito, provocador e frequentemente fascinante. Talvez não conquiste todos os espectadores, mas certamente deixará poucos indiferentes.
Eddington confirma a capacidade de Ari Aster de criar obras provocativas e visualmente marcantes. Embora a ambição do roteiro ocasionalmente comprometa sua força dramática, o filme se sustenta graças à direção inspirada e à atuação magnética de Joaquin Phoenix. Não é uma experiência perfeita, mas é uma das produções mais interessantes disponíveis atualmente no Prime Video.
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