E se a última chance de relevância viesse justamente quando tudo ao redor já tivesse mudado? The Comeback retorna ao HBO Max para sua terceira e última temporada colocando Valerie Cherish em um cenário ainda mais cruel: uma indústria que não apenas esqueceu como fazer TV, mas que agora tenta automatizá-la.
Com Lisa Kudrow novamente no centro, a série não perde tempo tentando reconquistar o público. Ela já parte de um ponto incômodo. Valerie aceita protagonizar uma nova sitcom, mas descobre que o projeto é escrito por inteligência artificial.
E aqui está o primeiro acerto. A série não trata isso como piada leve. Ela transforma a IA em símbolo de uma Hollywood que perdeu completamente o controle criativo.
A série continua desconfortável, e isso ainda é seu maior trunfo
O formato de mockumentary segue sendo essencial. A câmera não está ali só para registrar, ela expõe. Cada silêncio, cada constrangimento e cada tentativa desesperada de Valerie de se manter relevante ganham peso.
Existe uma cena que resume bem essa proposta. Durante um teste de roteiro gerado por IA, Valerie tenta interpretar um texto que claramente não entende emoção humana. O resultado não é só estranho, é desconfortável.
Esse tipo de momento lembra o que séries como Curb Your Enthusiasm fazem, mas com uma diferença importante. Aqui, o constrangimento não é só humor. Ele é diagnóstico de uma indústria.
A série acerta ao não suavizar Valerie. Ela continua egocêntrica, deslocada e, ao mesmo tempo, profundamente vulnerável. Esse equilíbrio é o que sustenta a temporada.
A crítica à indústria é mais direta, mas também mais amarga
A inclusão da IA como elemento central não é aleatória. A série conecta isso diretamente às mudanças recentes em Hollywood, incluindo as greves de roteiristas e atores.
Existe um momento em que Valerie percebe que não está competindo com outras atrizes, mas com um sistema inteiro. Esse deslocamento muda o tipo de conflito.
Diferente de temporadas anteriores, onde a luta era por espaço, aqui a luta é por relevância em um sistema que já não precisa mais de você.
Esse é o ponto em que a série se aproxima de produções como Black Mirror, mas sem abandonar sua identidade. Em vez de distopia tecnológica, ela entrega uma distopia emocional.
Outro elemento forte é o tratamento da ausência de Mickey. A decisão de não substituir o personagem e integrar sua morte à narrativa adiciona uma camada inesperada de peso.

Isso aparece principalmente nos momentos em que Valerie tenta manter sua rotina enquanto lida com a perda. A série não dramatiza excessivamente, mas também não ignora.
Ainda assim, nem tudo funciona com a mesma força.
A temporada, em alguns momentos, parece mais interessada em construir discurso do que em desenvolver conflito. Certas situações são claras demais em sua intenção, o que reduz a sutileza que sempre foi uma das marcas da série.
Mesmo assim, o saldo é positivo. Dentro do catálogo de streaming, The Comeback se destaca por algo raro. Ela não tenta agradar. Ela expõe. E talvez seja exatamente por isso que continua relevante, mesmo depois de tantos anos.
A temporada não esconde o que quer dizer. A presença da IA não é apenas temática, ela representa diretamente o medo de substituição criativa.
Em um momento específico, fica claro que Valerie não está mais disputando espaço com outras atrizes, mas com um sistema inteiro que não precisa mais dela. Esse deslocamento muda completamente o peso da narrativa.
A série se aproxima de algo que Black Mirror faria, mas sem abandonar seu estilo. Aqui não existe tecnologia assustadora visualmente. Existe uma mudança silenciosa que já aconteceu.
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