Lançada em 2010 sem muito barulho e rapidamente rotulada de fracasso comercial, a comédia de ação “MacGruber” acaba de conquistar espaço nobre na lista de filmes mais vistos da HBO Max. A produção aparece em quinto lugar no ranking norte-americano de 6 de fevereiro de 2026, posição que nenhuma campanha de marketing conseguiu garantir na época da estreia.
O feito chega pouco mais de um ano após a morte de Val Kilmer, intérprete do vilão Dieter Von Cunth, e reforça o apelo tardio de um elenco alinhado com humor abrasivo e timing preciso. O buzz renovado comprova que, às vezes, o público só precisa de tempo – e do catálogo certo – para redescobrir tesouros ignorados pelo circuito tradicional.
Elenco encaixado e química afinada
Parte do carisma duradouro de “MacGruber” vem da desenvoltura do trio principal. Will Forte, criador do personagem nos esquetes do “Saturday Night Live”, leva para as telas o mesmo ar de herói improvisado e narcisista, mas encontra no formato de 90 minutos espaço para explorar gags físicas, tiradas autoparódicas e um humor escrachado que beira o absurdo.
Kristen Wiig, como Vicki St. Elmo, contracena com desenvoltura e serve de contrapeso emocional ao protagonista. A atriz mistura inocência e cumplicidade, oferecendo respiros de humanidade em meio à montanha-russa de piadas sem filtro. Ryan Phillippe, por sua vez, assume a missão de “soldado sério” e reforça o contraste com a figura caótica de MacGruber; o choque de estilos intensifica a comicidade sem perder ritmo.
A presença de Val Kilmer: vilania à moda antiga
Quem assiste hoje percebe como Val Kilmer injeta peso dramático sem comprometer o tom farsesco. O ator abraça o exagero do roteiro, mas mantém uma postura ameaçadora que sustenta o conflito. Não se trata de um vilão cartunesco qualquer: há cinismo contido, olhar frio e certa elegância que lembram antagonistas clássicos.
Essa entrega é ainda mais significativa quando revisitada à luz da carreira do astro, marcada por papéis icônicos em “Top Gun”, “Willow” e “Batman Forever”. Em “MacGruber”, Kilmer demonstra versatilidade, alternando zombaria e seriedade com fluidez. A redescoberta do longa nos streamings funciona, portanto, como tributo involuntário a um profissional que sempre transitou entre produções de grande e pequeno orçamento.
Direção de Jorma Taccone valoriza esquetes sem perder ritmo
Transformar um sketch de poucos minutos em longa-metragem nunca é tarefa simples. Jorma Taccone, também egresso do “SNL”, recorre à linguagem ágil, cortes secos e trilha sonora exagerada para imitar o cinema de ação oitentista que inspirou a paródia. O resultado é uma narrativa que confunde homenagem e deboche, mas evita a sensação de episódio estendido.
No roteiro, assinado por Taccone ao lado de Forte e John Solomon, piadas recorrentes se intercalam com set pieces de ação genuínas. O orçamento de US$ 10 milhões impôs limitações, porém o diretor soube explorar explosões pequenas, cenários fechados e figurinos kitsch para acentuar o humor. A estratégia rende cenas como a montagem de preparação armamentista – prontamente destruída por um erro do protagonista – que seguem funcionando 16 anos depois.

Imagem: Imagem: Divulgação
Do fiasco de bilheteria ao status de cult no HBO Max
Em 2010, “MacGruber” arrecadou aproximadamente US$ 9 milhões e deixou as salas sem pagar o próprio custo. À época, críticos questionaram se a piada do sketch sustentaria um ato inteiro; o consenso no Rotten Tomatoes ficou em modestos 47 %. Bastou uma década e meia para a percepção mudar.
A virada começou em maratonas televisivas, cresceu com a série derivada do Peacock – aprovada por 85 % dos avaliadores – e explodiu quando o algoritmo da HBO Max o empurrou para a seção de tendências ao lado de títulos como “If I Had Legs I’d Kick You” e “The Smashing Machine”. A plataforma já havia mostrado poder semelhante ao colocar “Spider-Man: Homecoming” no topo de visualizações, e repete o feito com uma produção que custou a encontrar seu público.
Vale a pena assistir?
Rever “MacGruber” em 2026 significa encontrar uma comédia que não teme ultrapassar limites e usa justamente esse exagero para satirizar filmes de ação musculosos. A maturidade do elenco, o timing cômico de Forte e o antagonismo inspirado de Val Kilmer sustentam a experiência até o fim dos 90 minutos.
Mesmo para quem não acompanhou o personagem no “SNL”, a trama é simples: herói decadente, artefato nuclear em risco e um vilão disposto a tudo. Essa clareza permite que o espectador se concentre na performance, onde se encontram as maiores virtudes. O humor pode dividir opiniões, mas o ritmo enxuto e as atuações garantem entretenimento puro.
No catálogo da HBO Max, “MacGruber” prova que nem todo fracasso comercial é sentença definitiva. Às vezes, basta um clique no sofá para transformar um “lembra daquele filme?” em sensação do momento – e, de quebra, celebrar a versatilidade de Val Kilmer que o público do 365 Filmes tanto admira.
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