Quentin Tarantino sempre foi sinônimo de roteiro afiado e direção de mão firme, mas nem todo projeto com seu toque virou ouro. Antes de estourar com “Pulp Fiction”, o cineasta chegou a reescrever o longa “It’s Pat”, derivado de um popular quadro do Saturday Night Live (SNL).
O resultado? Um fiasco retumbante: 0% de aprovação no Rotten Tomatoes, bilheteria de apenas US$ 60.822 e lançamento tímido em pouquíssimas salas. A seguir, veja como essa passagem pouco lembrada da carreira de Tarantino se desenrolou e por que quase ninguém viu o filme.
A paixão de Tarantino pelo personagem Pat
O envolvimento do diretor começou em 1993, quando o roteiro de “It’s Pat” já havia passado por diversas mãos. Tarantino, encantado pelo esquetes de Julia Sweeney no SNL, ofereceu-se para fazer um novo tratamento no texto. Ele adorava o humor em torno da ambiguidade de gênero do personagem, descrito por ele como “obnóxio e irresistível”.
Durante a reescrita, o cineasta acrescentou um elemento de suspense: um perseguidor que não desistia de descobrir se Pat era homem ou mulher. Essa camada extra pretendia manter o mistério e, ao mesmo tempo, intensificar o conflito cômico, sem jamais revelar a verdadeira identidade de gênero de Pat.
Detalhes da nova trama proposta
• Pat passa o filme inteiro fugindo de um stalker obcecado.
• Chris, o par romântico vivido por Dave Foley, também é intencionalmente enigmático.
• Em momento crucial, ambos supostamente expõem suas genitálias, mas a câmera corta antes que o público veja.
Produção problemática e lançamento limitado
Apesar das alterações, o roteiro final creditou Julia Sweeney, Jim Emerson e Stephen Hibbert. Tarantino não recebeu menção oficial, situação semelhante ao que ocorreu em “Crimson Tide”, onde contribuiu sem ser creditado. A direção ficou com Adam Bernstein, veterano de videoclipes e televisão.
A Fox, receosa da recepção, liberou apenas US$ 8 milhões para o orçamento e programou o lançamento em 33 salas, todas em Seattle, Spokane e Houston. Sem divulgação nacional, “It’s Pat” saiu de cartaz rápido e só chegou ao home video sete meses depois.
Números que explicam o desastre
• Orçamento: US$ 8 milhões
• Bilheteria: US$ 60.822
• Rotten Tomatoes: 0% de aprovação crítica, 30% do público
Críticas impiedosas e o status de pior filme do SNL
A recepção foi devastadora. Variety classificou o longa como “pouco engraçado”, enquanto o Los Angeles Times lamentou a execução “terrivelmente falha”. Para um público acostumado a produções como “Wayne’s World”, o humor de “It’s Pat” soou datado e ofensivo.
Imagem: INSTARs
O tom grosseiro e a insistência no mistério de gênero, sem uma mensagem clara, comprometeram o apelo comercial. A participação indireta de Tarantino virou nota de rodapé, já que seu nome jamais figurou nos créditos oficiais.
Comparação com outros derivados do SNL
Enquanto “The Blues Brothers” e “Wayne’s World” lucraram milhões, “It’s Pat” segura o título nada honroso de pior desempenho de uma adaptação do programa. Nem mesmo o pedigree do roteirista cult conseguiu atrair público.
O que Tarantino disse sobre a experiência
Em entrevista à Playboy, em 1994, Tarantino explicou que não se importava em descobrir o gênero de Pat; o fascínio vinha do comportamento “desagradavelmente divertido”. Ele mencionou um esquete com Harvey Keitel, onde o beijo entre os personagens reforçou sua convicção de que Pat agia “como uma garota”, embora continuasse ambígua.
Mesmo após o fracasso, o cineasta nunca renegou o projeto, diferente do que fez com “Natural Born Killers”, outra obra baseada em roteiro seu. Ainda assim, “It’s Pat” foi o alerta definitivo de que seu humor ácido funcionava melhor mesclado a crime, violência e diálogos rápidos, não como peça central de uma comédia mainstream.
Tarantino e a comédia: caminho que ele prefere evitar
Desde então, o diretor não comandou nenhuma comédia pura. Elementos cômicos aparecem em “Pulp Fiction”, “Kill Bill”, “Django Livre” e “Os Oito Odiados”, mas sempre interligados a tramas de crime ou vingança. A recepção gélida de “It’s Pat” provavelmente reforçou a impressão de que seu estilo irreverente funciona melhor em gêneros híbridos.
Para o público que acompanha o 365 Filmes, a lição é clara: até mesmo cineastas consagrados tropeçam quando saem de sua zona de conforto. E, no caso de Tarantino, talvez seja melhor deixar a comédia pastelão para outros realizadores.
Este conteúdo foi publicado originalmente no 365Filmes. A reprodução total ou parcial é permitida apenas mediante a citação da fonte, com link direto (dofollow) para o artigo original, garantindo a correta atribuição de autoria e a credibilidade da informação.
Não perca as novidades do 365 Filmes no Google News!



