Poucos filmes de ficção científica recentes chegam aos cinemas com uma proposta tão curiosa quanto Devoradores de Estrelas. Adaptado do romance Project Hail Mary, do escritor Andy Weir, o longa tenta transformar ciência real em espetáculo cinematográfico. A estreia acontece nos cinemas brasileiros em 19 de março, e o projeto chega cercado de expectativa justamente porque vem do mesmo autor que inspirou Perdido em Marte. Quem acompanha o gênero sabe que as histórias de Weir costumam tratar física e engenharia como protagonistas da narrativa.
Aqui, a aposta é semelhante. O filme acompanha um professor de ciências que acaba se tornando a última esperança da humanidade diante de um fenômeno cósmico que ameaça apagar o Sol lentamente.
A ideia pode soar absurda à primeira vista, mas o roteiro faz um esforço evidente para manter os pés no terreno da ciência plausível. E esse é justamente o elemento que diferencia Devoradores de Estrelas de boa parte das aventuras espaciais recentes que costumam dominar o cinema comercial.
Quando a sobrevivência da Terra depende de um professor
O protagonista da história é Ryland Grace, interpretado por Ryan Gosling. Ele desperta sozinho em uma nave espacial, sem memória clara de quem é ou por que está ali.
À medida que as lembranças retornam, descobrimos que Grace faz parte de uma missão desesperada criada após cientistas detectarem um fenômeno chamado Linha de Petrova, responsável por drenar lentamente a energia do Sol. A consequência desse processo é devastadora: a Terra começa a esfriar rapidamente, e os cálculos indicam que a humanidade tem apenas algumas décadas antes que a agricultura se torne impossível.
É nesse ponto que a narrativa mostra sua ambição. Em vez de focar em conflitos políticos ou batalhas militares, o filme coloca o método científico no centro da ação. Cada problema enfrentado por Grace exige observação, hipóteses e experimentos improvisados.
A atuação de Ryan Gosling ajuda bastante a sustentar essa proposta. Grande parte do primeiro ato acontece com o personagem completamente sozinho, tentando entender o que aconteceu e como operar a nave.
Não é um papel de ação tradicional.
Grace não é um herói musculoso ou um piloto destemido. Ele é um professor assustado que precisa confiar no que sabe para sobreviver.
Esse detalhe muda completamente a energia da história e aproxima o espectador do personagem.
O encontro alienígena que muda o rumo da missão
A trama ganha uma nova dimensão quando a nave humana encontra outra embarcação no sistema estelar de destino.
Dentro dela está Rocky, um alienígena vindo do planeta Erid que também tenta salvar sua civilização da mesma ameaça solar. O encontro entre os dois transforma completamente o tom da narrativa.
Sem conseguir conversar da forma tradicional, os personagens começam a construir uma linguagem baseada em matemática e conceitos científicos universais.
Esse processo de comunicação improvisada acaba se tornando um dos momentos mais interessantes do filme. A relação entre Grace e Rocky cresce gradualmente, passando de curiosidade para uma parceria de sobrevivência.
É nesse ponto que Devoradores de Estrelas revela sua principal ideia: inteligência e curiosidade podem ser pontes entre espécies completamente diferentes.
Visualmente, o filme também tenta se diferenciar. A fotografia de Greig Fraser aposta em contrastes fortes entre o interior claustrofóbico da nave e a imensidão colorida do espaço.

A produção também buscou usar cenários físicos sempre que possível, reduzindo a dependência de cenários digitais. Isso dá uma sensação mais concreta às cenas dentro da nave e ajuda a reforçar o clima de isolamento.
Ainda assim, nem tudo funciona perfeitamente. Em alguns momentos, a quantidade de explicações científicas pode desacelerar o ritmo da narrativa, principalmente para quem espera uma aventura espacial mais direta.
Mesmo com essas pequenas irregularidades, o filme tem algo raro hoje em dia: uma identidade clara.
Em um cenário dominado por franquias previsíveis e universos compartilhados, ver uma produção apostar em ciência, curiosidade e cooperação como motores dramáticos é refrescante. Para quem gosta de ficção científica mais cerebral, Devoradores de Estrelas pode facilmente se tornar uma das experiências mais interessantes do ano no streaming e nos cinemas.
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