A temporada social reabre suas portas e, desta vez, é Benedict Bridgerton quem precisa dançar conforme a música. A Parte 1 da quarta temporada chega à Netflix conduzindo o segundo filho da família a um arco declaradamente inspirado em Cinderela, repleto de bailes, máscaras e dilemas de classe.
O encantamento, porém, não é imediato. Ainda que o figurino impecável e a trilha orquestral mantenham o padrão luxuoso da série, alguns passos saem do compasso. A seguir, destrinchamos como as atuações, o texto e a mão dos diretores equilibram – ou nem tanto – tradição e ousadia.
Benedict abandona a boemia e veste a coroa de príncipe charmoso
Interpretado por Luke Thompson, Benedict sempre brilhou como alma livre, curioso e um tanto provocador. Nos episódios iniciais, contudo, o roteiro força uma virada brusca: de aventureiro a pretendente obcecado por uma desconhecida mascarada. A transição soa apressada e, em alguns momentos, artificial, especialmente quando o personagem solta clichês dignos de folhetim, como o inevitável “você não é como as outras damas”.
Apesar desse tropeço de construção, Thompson mantém carisma suficiente para segurar o foco. O ator injeta leveza nos encontros furtivos e consegue, aos poucos, recuperar o brilho do libertino que o público conheceu. Ainda assim, a sensação é de que a temporada pisa no freio de maneira abrupta, deixando de explorar a fluidez sexual apresentada anteriormente. Essa mudança repentina lembra escolhas discutidas em outras produções que supostamente potencializariam o elenco, mas acabaram limitando-o, caso de “Pecadores”.
Sophie Baek ilumina a tela e renova debate sobre classe social
Yerin Ha encarna Sophie Baek, a criada que rouba uma noite de sonho no baile e foge antes do amanhecer. Diferente de tantas heroínas que já desfilaram pelos salões de Bridgerton, Sophie traz o ponto de vista “dos bastidores”, permitindo à série tocar na ferida sempre evitada pela aristocracia: a desigualdade.
Quando finalmente surge sem máscara, a química entre Sophie e Benedict se mostra bem mais orgânica que no encontro inicial. Ha imprime vulnerabilidade sem jamais cair no vitimismo; há força em sua postura, especialmente nas cenas em que precisa se impor diante da arrogante Lady Araminta (Katie Leung). Essa dinâmica lembra a boa sintonia de elenco vista no sci-fi de ação citado pelo 365 Filmes em “A Guerra do Amanhã”, onde o entrosamento sustentava a trama.
Subtramas perdem brilho, mas Violet Bridgerton garante faísca
Entre as histórias paralelas, a pena de Lady Whistledown (Nicola Coughlan) parece sem tinta. Desde que Penelope foi desmascarada, a coluna perdeu o elemento proibido, diminuindo sua relevância narrativa. Eloise, por sua vez, alterna momentos de revolta com longos silêncios, um contraste que dilui o vigor sarcástico que sempre a definiu.
Quem resgata a energia é Violet Bridgerton, vivida por Ruth Gemmell. O flerte com Lord Marcus Anderson (Daniel Francis) injeta maturidade sensual e lembra ao público que desejo não tem idade. A dupla entrega cenas calorosas com timing preciso e olhar cúmplice, jogando luz sobre um recorte raramente explorado em romances de época.
Imagem: Imagem: Divulgação
Direção, roteiro e estética: entre o luxo e a hesitação narrativa
Assinada por vários diretores convidados, a temporada mantém o visual de cartão-postal: palácios banhados por velas, valsa moderna em versão quarteto de cordas e figurinos que beiram a alta-costura. Ainda assim, a escolha de abrir com um prólogo excessivamente longo – o baile de máscaras – compromete o ritmo logo de cara.
Nos bastidores do texto, a showrunner Jess Brownell tenta equilibrar duas promessas: revisitar contos de fadas e subverter convenções. Quando aposta na primeira, acerta na fantasia; quando abraça a segunda, provoca. O problema é conciliar ambas sem que uma anule a outra. Falta a coesão observada em roteiros que, mesmo truncados, mantêm pulso firme, como apontado na análise de “Justiça Artificial”.
A fotografia merece destaque: closes em tons âmbar reforçam a intimidade dos diálogos, enquanto planos gerais dão escala a bailes com centenas de figurantes. É cinema em formato seriado, mas sem a ousadia estética vista, por exemplo, em “Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno” – produção que mergulha o espectador em atmosfera quase palpável.
Vale a pena assistir à Parte 1 da 4ª temporada?
Para quem acompanha Bridgerton desde o início, a nova leva de episódios entrega o que se espera: romance de suspirar, cenários opulentos e muita troca de olhares. Luke Thompson e Yerin Ha formam casal cativante quando o roteiro lhes dá espaço, embora o texto hesite em explorar por completo o passado libertino de Benedict.
As subtramas variam em sabor, mas Violet Bridgerton compensa qualquer morosidade com presença magnética, reforçando o apreço da série por personagens femininas maduras. O enfraquecimento de Lady Whistledown é notável, porém pode ser apenas o prelúdio de algo maior na Parte 2.
No saldo geral, a Parte 1 entrega entretenimento elegante, ainda que sem o frescor das melhores fases do drama de época. Fica a expectativa de que o palco esteja somente sendo armado para viradas mais ousadas quando a carruagem retornar ao quarteirão dos Bridgerton.
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