Janeiro costuma ser o mês ideal para organizar listas de filmes e, entre tantas opções de streaming, a Criterion Channel continua sendo um paraíso para quem busca curadoria de alto nível. A plataforma reúne títulos consagrados e joias pouco lembradas, sempre com restaurações caprichadas e material de apoio robusto.
Selecionamos cinco longas que merecem pular direto para o topo da fila. O recorte privilegia atuações marcantes, direções inspiradas e roteiros que ainda soam frescos, mesmo décadas depois. Confira, ajuste a pipoca e prepare o sofá.
Starlet (2012): descobrindo humanidade no cotidiano
A carreira de Sean Baker ganhou holofotes com Tangerine e Projeto Flórida, mas foi em Starlet que o cineasta já demonstrava domínio absoluto da observação social. O roteiro, escrito pelo próprio diretor ao lado de Chris Bergoch, apresenta Jane (Dree Hemingway), jovem sem rumo que encontra uma fortuna escondida em um simples garimpo de quintal. A parceira improvável com a idosa Sadie (Besedka Johnson) conduz a trama por diálogos ternos, quase sempre filmados com câmera na mão, enfatizando naturalismo.
Dree Hemingway investe em minimalismo: pequenos gestos, silêncios incômodos e olhares curiosos sustentam a transformação da personagem. Besedka Johnson, em contrapartida, constrói Sadie com rigidez externa que aos poucos cede a afeto genuíno. O contraste gera tensão e humor na medida certa. Baker prefere planos longos e luz natural, estratégia que dá aos atores espaço para respirar. O resultado é uma narrativa que desafia a linha entre ficção e documentário, fiel à estética que se tornaria assinatura do diretor.
Police Story (1985): o balé acrobático de Jackie Chan
Antes de Hollywood tentar lapidar seu estilo, Jackie Chan já agitava plateias em Hong Kong com misturas explosivas de ação e comédia. Em Police Story, ele acumula funções de astro, diretor e dublê-chefe, construindo um espetáculo marcado pelo risco físico palpável. O enredo, sobre um policial encarregado de proteger a namorada de um chefão do crime, funciona como pretexto para perseguições insanas, saltos de andaimes e quedas que desafiam a lógica.
Chan demonstra timing cômico impecável, muitas vezes dentro da própria cena de pancadaria. Maggie Cheung, como a namorada atrapalhada do protagonista, complementa a dinâmica com genuína graça física — basta ver a sequência do guarda-chuva no ônibus lotado. O roteiro assinado por Edward Tang dosa comentários sobre corrupção policial sem perder o ritmo frenético. Visualmente, a fotografia de Cheung Yiu Cho prefere tons crus, reforçando o realismo dos golpes. O clímax no shopping, com vidro estilhaçando por todos os lados, virou manifestação definitiva da obstinação de Chan.
The Others (2001): Nicole Kidman sustenta o terror com sutileza
A virada do milênio gerou muitas experiências de horror questionáveis, mas The Others nadou contra a corrente ao resgatar o clima gótico dos anos 1960. Alejandro Amenábar assina direção e roteiro, situando a história em 1945, logo após a Segunda Guerra. Grace (Nicole Kidman) vive em uma mansão isolada com dois filhos que sofrem de fotossensibilidade; a chegada de novos funcionários abala a frágil rotina.
Kidman interpreta Grace com compostura rígida, quase militar, permitindo que rachaduras emocionais apareçam lentamente. A atriz utiliza respirações curtas e postura ereta para comunicar pavor contido — recurso que torna os sustos ainda mais eficazes. A fotografia de Javier Aguirresarobe investe em sombras profundas, enquanto a trilha de Amenábar sussurra em vez de gritar. O roteiro estrutura reviravoltas que testam a percepção do espectador sem recorrer a truques baratos. O resultado permanece entre os suspenses mais elegantes dos anos 2000.
Imagem: Imagem: Divulgação
Red River (1948): John Wayne contra o próprio mito
Howard Hawks, mestre em alternar gêneros, entregou em Red River um faroeste que combina épico de estrada com drama familiar. O roteiro de Borden Chase e Charles Schnee acompanha Thomas Dunson (John Wayne) conduzindo a maior boiada já vista até então, enquanto o filho adotivo Matt (Montgomery Clift) questiona seus métodos autoritários.
Wayne, famoso pelo charme risonho, interpreta Dunson como uma rocha inflexível, olhar duro e voz grave que quase não admite vacilo. Clift, por sua vez, introduz o método de atuação mais contido que marcaria a nova geração de Hollywood. O choque entre estilos atua como força centrífuga da narrativa. Hawks equilibra grandiosas tomadas de paisagem com diálogos rápidos e bem-humorados, característica do diretor. Mesmo mais de sete décadas depois, a jornada de poder, orgulho e reconciliação mantém fôlego e conversa com temas de liderança tóxica ainda atuais.
Lost in America (1985): Albert Brooks satiriza o sonho americano
Quando Albert Brooks resolve colocar a própria neurose em cena, o resultado costuma ser delicioso. Em Lost in America, que ele escreve, dirige e protagoniza, Brooks vive David Howard, publicitário que decide abandonar o emprego e rodar o país com a esposa Linda (Julie Hagerty) após se inspirar em Sem Destino. A crise toma rumos hilários já na primeira parada, quando a dupla perde todo o dinheiro em um cassino.
Brooks domina o timing verbal, alternando pausas desconcertantes e ataques de frustração que ecoam Woody Allen, mas com personalidade própria. Julie Hagerty serve de contraponto perfeito, exprimindo otimismo inabalável que beira ingenuidade. O roteiro faz críticas afiadas ao individualismo yuppie, ao mesmo tempo em que confere empatia aos protagonistas. A direção opta por enquadramentos simples, permitindo que as performances conduzam o riso. No fim, a sátira se sustenta graças ao desespero genuíno que transborda das expressões de Brooks.
Vale a pena conferir estas pérolas?
Para quem chegou agora à Criterion Channel, esses cinco títulos funcionam como porta de entrada ampla: passeiam do faroeste à comédia de erros, do terror atmosférico ao drama intimista. Todos exibem atores em estados de graça e direções seguras, prova de que o serviço continua empenhado em preservar cinema de qualidade. O site 365 Filmes recomenda guardar um espaço especial na grade: cada obra destaca facetas distintas da arte de contar histórias, lembrando por que o catálogo segue indispensável para qualquer cinéfilo.
Este conteúdo foi publicado originalmente no 365Filmes. A reprodução total ou parcial é permitida apenas mediante a citação da fonte, com link direto (dofollow) para o artigo original, garantindo a correta atribuição de autoria e a credibilidade da informação.
Não perca as novidades do 365 Filmes no Google News!



